Os jovens jogam, cada dia mais, com uma variedade de vídeo games cada vez mais ampla. Passam horas a fio na Internet, com os controles remotos nas mãos, olhos fixos na tela pra não perder nenhuma oportunidade e muitos deles preferem estar sozinhos jogando a brincar com amigos. Os vídeo games estão fazendo com que nossos filhos se tornem mais isolados do mundo?

Certamente, há aprendizados nos vídeo games que vão marcar essa geração por muito tempo. A primeira delas, segundo o autor do livro Got Games, Jonh Beck, é de que nossos filhos tendem a acreditar que, da mesma maneira que podem perder uma partida e dar um “restart” iniciando um jogo novo, podem vir a acreditar que na vida real isso também é possível. Essa afirmativa é perigosa e precisa ser levada em consideração. Nossos filhos e sobrinhos, vivendo num mundo irreal dos jogos, podem acreditar que na vida, a experiência do erro pode não trazer consequências graves porque a solução seria simplesmente “recomeçar”.

Acho  muito importante observar que esta geração, porque lidou mais com a informática, acostumou-se a trabalhar pelo método de tentativa e erro. Eu costumo brincar que na primeira vez que sentei pra jogar o jogo Wii, um vídeo game, perguntei imediatamente a meu filho: “Como se joga isto?”. Em seguida olhou pra mim como quem não entendia a pergunta. Para ele, eu devia começar e ir tentando, até compreender o jogo. Na minha educação, este modelo mental não funciona. Aprendemos que o erro deve ser penalizado e devemos aprender antes de fazer alguma coisa. Eu devo, portanto, ler um manual sobre o funcionamento e as regras do jogo.

Hoje, acredito que os “gadjets” nem venham mais com um manual de instruções. O aprendizado é na base da tentativa e erro. Isto leva os jovens a uma crença que todos pensam dessa maneira e a vida é mais fácil quando se pode tentar, errar e recomeçar. Nós até acreditamos que é desta forma que deve ser o aprendizado. Todos os educadores a partir dos anos 60 nos fizeram entender que o aprendizado seria mais eficaz com menos punição agregada, despertando o interesse da criança pelo aprendizado, sem fazer do erro uma experiência marcante. Foi assim que educamos nossos filhos. Se eles errarem, não há problemas. Os vídeo games só vieram dar suporte a um modelo de aprendizado baseado em “tentativa e erro”. A experimentação.

O risco é que este conceito seja absorvido por nossos filhos literalmente. Sem que se leve em consideração as consequências de nossas ações, e que a vida seja um eterno jogo. Vejamos quais as características do video game que podem interferir na análise do ambiente que cerca uma pessoa que vive em sociedade:

Você é a estrela do jogo. O mundo gira ao teu redor e você é aquele que dá as ordens. Você começa e termina na hora que quer. Você é um especialista e você é muito forte. Você pode vencer obstáculos muito complicados. Como é o mundo que nos cerca quando jogamos? Nos ambientes de jogos sempre há uma resposta para tudo. Você pode ficar frustrado por algum tempo, mas sempre acaba passando de “fase”, ganhando alguma coisa. Tudo é possível no mundo da fantasia. As coisas são simples e você consegue resolvê-las.

E neste mundo imaginário, como as pessoas se relacionam? Sempre é uma competição e você será vencedor. As regras do mundo são claras e controláveis e funcionando dentro de uma lógica própria. Você só precisa entender esta lógica.  Neste mundo onde tudo é possível, devemos ser heróis e, em última análise, nos divertir. No entanto estas regras são válidas somente para um mundo muito específico dos vídeo games, que não são regras da sociedade em que vivemos.

No mundo dos vídeo games, são suas habilidades técnicas que te fazem ser um vencedor. Você precisa ter reflexos rápidos, ter uma excelente atenção concentrada e verificar todas as variáveis que podem te fazer perder ou ganhar. Não são suas habilidades de relacionamento, sua inteligência, suas competências como líder. É a sua capacidade de lidar com as variáveis da tela e reagir rapidamente que fazem você ganhar ou perder. Esta simulação é muito mais simples e fácil do que a complexa vida interagindo com outras variáveis. O jogo é uma forma de escape, sim, mas quem não cresceu com algumas fórmulas de escape da pressão cotidiana?

O fato é que, como no mundo dos games há sempre uma pequena recompensa depois de uma batalha (antes que se vença a guerra), os jovens da Geração Y começam a querer, na vida real, pequenas recompensas pelo que fazem. E se a vida numa organização não é “divertida”, pode se desligar o computador e recomeçar de novo, o que na vida real significa sair de uma empresa e começar em outra.

Li um artigo recentemente da Korn Ferry falando da gamificação do mundo. Tudo nas nossas vidas, agora, deve ser um jogo e deve ser divertida! A experiência de comprar, de trabalhar, de estudar, enfim, qualquer experiência deve nos trazer prazer. Não será essa a filosofia dos games? O fato é que, quer tenhamos este objetivo ou não, estamos atuando na vida cotidiana com as mesmas premissas dos jovens da Geração Y: O prazer deve estar sempre presente e as pequenas recompensas são essenciais para nos manter motivados. Até incorporamos a seguinte frase que é típica de gamers: “No final dá tudo certo. Se não deu certo ainda é porque não chegamos ao final”.

Estamos, definitivamente, incorporando comportamentos de gamers na vida cotidiana. Afinal, é uma geração que chega às organizações no Brasil exatamente num momento de pleno emprego, onde o país cresce e onde, se não houver “prazer” no meu trabalho, eu posso procurar este prazer na empresa ao lado. Provavelmente, em países da Europa onde a crise se mostra forte e onde conseguir um bom emprego não é fácil, a realidade não vem confirmar o comportamento adquirido com a experiência de ser um jogador frequente. Mas, este não é o caso do Brasil de agora.

É por isto que eu digo que a gente deve entender uma geração num determinado país e de acordo com a cultura vigente naquele momento específico. A geração Y não é uniforme pelo mundo todo. Nem mesmo no Brasil como um todo. As gerações devem ser estudadas dentro de um contexto, um momento, uma realidade social.

A nossa geração Y e os comportamentos e cultura assumidos em função da experiência vivida por nossa realidade são únicos. É preciso saber observar e entender porque os hábitos e atitudes de uma sociedade mudam em relação a outras gerações. Certamente a vinda dos vídeo games influenciou bastante e continua influenciando nossa cultura. Não adianta questionarmos se isto é bom ou ruim. Se no passado era melhor ou se este modelo será melhor na formação de nossos jovens. A realidade é esta que está aí. Vamos aprender quais as implicações das mudanças de comportamento e encontrar um modo de conviver com os desejos e aspirações de cada nova geração surge. É deste complexo equilíbrio que é feita a vida.

*Eline Kullock – Formada em administração de empresas pela FGV-RJ e MBA Executivo pela Coppead – UFRJ, Eline também é sócia, há 15 anos, da Stanton Chase Internacional, multinacional de executive search baseada em Londres. A profissional é também, há vários anos, pesquisadora de tendências do comportamento dos jovens e a influência dos videogames em sua atuação profissional, sendo considerada fonte de referência no assunto, especialmente quando se fala em “Geração Y“.
Crédito foto: freedigitalphotos.net/imagerymajestic 

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