O que Antropoceno, Churinga, o Homem e Hellboy têm em comum?

Quem tiver oportunidade e tempo, planeje uma visita. O Museu do Amanhã é uma advertência, um puxão de orelha em todos nós que nos julgamos donos planeta. Tento encontrar uma palavra que o descreva. A começar pela arquitetura inovadora. A mensagem que passa é paradoxal, se comparada à calamidade político-social em que vive o Rio de Janeiro. Mas a melhor definição é Antropoceno.

Estamos na era humana. E quando há o homem, existe interferência. Boa ou não. De 1950 para cá, o mundo cresceu de forma nunca antes vista. Graças aos avanços da medicina, ciência e tecnologia, vivemos mais, encurtamos distâncias, sabemos de tudo instantaneamente… Mas há um vazio no coração da multidão. Ou é mero devaneio?

Visitando o museu, constata-se algo peculiar: Einstein tem razão. Num só local, vislumbramos o passado, o presente e – olha o puxão de orelha – um possível futuro. Desolador ou feliz? A relatividade do tempo é admirável e assustadora. Desde priscas eras. Do Arqueano até o nosso.

Antropoceno é um termo formulado por Paul Crutzen, Prêmio Nobel de Química de 1995. Um período da era Cenozoica. O que isto quer dizer? Que a despeito de não cessarmos de crescer feito coelhos, seremos extintos um dia, assim como aconteceu aos dinossauros. Inevitável. A pergunta é se vamos apressar ou retardar esse fim. Escolhas, escolhas.

Existem respostas para este “Amanhã” de infinitas possibilidades, que cabe exclusivamente a nós. O museu possui um jogo para provar isso. Se houvesse 8 bilhões de “você” habitando o planeta, quanto de recursos seria preciso para sustentar essa vida? Inquietante questão colocada pelo filósofo grego Aristóteles.

O mundo virtual, em avanço gradativo, vem substituindo o real. O homem mergulhou numa existência tecnológica paralela que tem o estranho poder de aproximar e afastar pessoas. A viagem pelo tempo, no Museu do Amanhã, sugere um filme de ficção. E como todo bom filme, tem surpresa no final: a Churinga.

A palavra pode soar estranha, de duplo sentido. Mas não se engane. A questão é: o que esperar do futuro? Como você costura o seu tempo? Para onde tudo isso nos levará? Lembre-se da verdade que feriu meu orgulho racional: Estamos num dos muitos períodos da Terra, o Antropoceno. Que vai acabar. Como todos os outros.

Ah! Mas isso, se acontecer, vai levar milhões de anos, dirão os céticos. Talvez. Só que milhões de anos ou amanhã também depende de nós. Fazemos parte de um todo que interage permanentemente.

Mas afinal, o que é Churinga? Sugiro que quem não puder conhecer o museu, pesquise na internet. Neste aspecto, ela é inegavelmente competente. Um mundo dentro de uma tela.

A viagem na sanfona atemporal do museu lembrou-me um filme: Hellboy 2. Ah, os cinéfilos! Numa das cenas, o anti-herói, moribundo, vê-se diante da personagem Morte, amparado por sua companheira, que pede por ele. A Morte adverte que Hellboy é filho do anjo decaído, por isso, tem um destino sinistro a cumprir. E lança o desafio: “Então, minha cara? Ele ou o mundo?” O amor de Liz não titubeia: “ele”.

“Está feito. Agora dê-lhe um motivo para viver”. Responde por fim. Novamente a relatividade. Novamente o tempo, as escolhas. A Morte salvou-lhe a vida. Liz tomou uma decisão que terá inexoráveis resultados. E para que a existência siga seu curso, há que se ter um motivo para viver. Qual é o nosso?

Hellboy possui uma aparência sinistra que o mundo rejeita. Justamente o mundo que ele protege por ter um bom coração. O que ele fará dali por diante está diretamente ligado à decisão de sua companheira. Ações costuradas.

O Museu não questiona beleza exterior, dinheiro ou poder. Estudando a trajetória do planeta e do Homem, ele projetou um futuro. Incógnito. O que fica é a orelha ardida pelo puxão. O que nos define? O berço do poder, do infortúnio? A beleza, a falta dela? Ou serão nossas escolhas? Que futuro aguarda o então dominante Homo Sapiens?

Só o tempo, paciente e silencioso, possui tal resposta. Eis o “em comum”.

Imagem: Museu do Amanhã/Reprodução

Informações do Autor

Mauro Barbosa Gomes

- Escritor, palestrante e músico da banda Quinta Nota. - Dois livros de crônicas/contos: A Chave do Seu Coração e Olhares. - Faz eventos promocionais com palestras e música em livrarias e Cafés. - Participação na Bienal Internacional do Livro 2016 no Anhembi São Paulo com tarde de autógrafos para “Olhares” , publicado pela Chiado Editora. - Integra a Antologia Poética Além do Céu Além do Mar que reúne poesias de vários autores Brasileiros em 2017. - Autor do Projeto literário Musical "O Tom da Letra" levado há dois anos em bares, restaurantes, etc. - Cronista por dez anos da revista eletrônica InfoWebNews (www.infowebnews.com) - 2001 a 2011 - Dois trabalhos publicados em Antologias literárias vencedoras do Prêmio Porto Seguro de Crônicas em 2008 e de Contos em 2009 - Dois contos selecionados para a Antologia de Contos 2009 do concurso da Editora Guemanisse, em Teresópolis. - Curso de Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC) – 1992 - Curso de Redação Publicitária - 1987 (Faculdades Integradas Hélio Alonso) Gosto de falar de relacionamentos, cotidiano, a vida em geral.

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