O Brasil é improdutivo. Mas, como, se há tanta concentração de renda?

Se há uma coisa farta neste mundo e há em excesso é dinheiro, mais especificamente, dinheiro parado com seus donos desesperados por novos investimentos, porém o problema é que a maioria desse dinheiro está parado, totalmente inerte devido à falta de verdadeiros visionários. Obviamente que quando se fala em investimentos é externo, já que foi comprovado por pesquisas exteriores, como a famosa publicação de 2014 da The Economist, no qual citou o Brasil como um país praticamente improdutivo, e acrescento, improdutivo, mas montado na riqueza. O sucesso econômico está no capital físico, inovação, recursos naturais e na cultura de seus líderes, em especial os que detém os capitais presos em uma concentração de renda jurássica. Há uma bola de neve de oportunidades diante de todos para ser investido.

É notório que quando o Brasil é classificado como “improdutivo”, todos apontam o dedo para os trabalhadores, para as pessoas que estão lá manipulando e manufaturando a matéria. Porque é notório o que diz a parábola: “Entre um artesão habilidoso, focado e bom de ferramentas de aparência suja por seu oficio e um boêmio todo bem vestido com brilhantina na cabeça e sapatos alinhados e que não produz nada, mas fala bonito, diante das câmeras e do povo, não tenham dúvidas que todos darão credito imediato ao boêmio, descaracterizando, descartando e até debochando do artesão

Não obstante, notamos que nos países desenvolvidos que os industriais trocam seu maquinário anualmente, se importam com inovações, customização, investem o que ganham em máquinas, tecnologia, ciência e inovação, diferente de muitas empresas Brasileiras que apenas se importam com patrimonialismo e acúmulo de dinheiro parado. A maioria das industrias Brasileiras de coronéis mantém maquinário de 40, 50, 60 anos atrás. Para quem não entende, essa mentalidade de coronéis do passado traz prejuízos para a economia a travando, mantendo o país como um país rico de renda baixa, ou seja, salários baixos e congelados a no mínimo três décadas diante de uma inflação sem vergonha e covarde, adicionado a desemprego em massa praticamente causado. Novamente a revista The Economist fez uma analise do Brasil, no qual pontuou: “enquanto a China estava construindo fábricas o Brasil estava construindo shoppings“! Logo, podemos concluir que é uma evidência clara de que enquanto o mundo pensa em criar e investir, por aqui reina a especulação, rentismo, patrimonialismo, protencionismo e acomodação.

Para quem não entende, manter maquinário antigo é algo que atinge a economia, enfraquecendo a economia porque eles não compram máquinas, paralisando as indústrias de maquinário, e as desmotivando de investir em inovação e automatização. Além do mais, manter maquinário antigo é como manter um opala em tempos no qual a gasolina está em preços impagáveis, ou seja, essas industrias recorrem a subsídios do governo para fornecer energia a preços especiais, empresas ultrapassadas, mas que geram lucros extraordinários. Lucro apenas para esses detentores dos recursos nacionais, concentradores de renda, esses patrimonialistas, e essas suas mega-industrias são responsáveis diretas ao colocar o país sob risco de um possível blackout energético, porque já foi comprovado que muitas dessas industrias jurássicas consomem energia suficiente para alimentar duas a três São Paulo inteiras. Só uma dica para quem se interessar, pesquise sobre os processos para se produzir alumínio, um material farto no Brasil dado pela natureza que só serve para consumir energia e para o bolso concentrador de renda de alguns apenas.

Já em países desenvolvidos os parques industriais priorizam a inovação, a busca por processos inovadores e ecológicos, além da automatização e a robótica fazendo uso de pouca energia e com uma produtividade inacreditável, já diante desses concentradores de renda, patrimonialistas, jurássicos coronéis não se nota nada, apenas o continuísmo do mesmo. Diante de um mundo que está repleto de buscas e inovações já consolidadas de usos de recursos e geração de energia. Mundialmente já foi comprovado que a maioria dos industriais Brasileiros e empresários possuem uma cultura sem lógica, no qual querem investir apenas em patrimonialismo como imóveis e fazendas, investindo quase zero e culpando o governo por isso, mas querem obter lucros irreais, algo que vem da cultura mesmo, concentrando os recursos nas mãos de meia dúzia de famílias e excluindo todo o resto.

Para quem ainda não compreendeu, o desemprego massivo em um país rico como o Brasil é culpa não apenas do governo, outro concentrador de renda e atraso de desenvolvimento que não será discutido aqui, mas que é igualmente uma pedra para o desenvolvimento do país. Assim, como esperar produtividade de um país com essa cultura, no qual até o ministério de ciência e tecnologia joga dinheiro em coisas que já estão escritas que não tem futuro, é só desvios infecundos. Um país que não gera nenhum cenário, apenas levanta os muros da desigualdade e exclui cada vez mais, em benefício do atraso e da covardia da concentração de renda extrema.

Distribuir renda não é dar dinheiro, nem bolsas, nem favores e muito menos bem-estar-social, ao contrário, é apenas investir no próprio negócio ao invés de apenas investir em patrimonialismo. Abrir uma Universidade para esse tipo de gente é apenas comprar um imóvel (patrimonialismo) com várias salas e corredores, colocar alguns “professores” e começar a vender diplomas. Mas, se precisar investir em equipamentos, máquinas, insumos de uma verdadeira Universidade recorrem aos subsídios dados pelo governo. Que investimento é esse? Não bastasse, essas tais Universidades após anos vendendo diplomas não apontam sequer um mísero artigo publicado ou pesquisa mínima. Em país sério seria motivo para ser fechada.

A questão do investimento é uma questão de mudança de cultura! Além do problema da falta de um olhar de longo prazo que apresente confiança, ação e investimento na atualidade, sendo que ninguém quer perder, só ganhar e ganhar, ao qual todos perdem na realidade. Há no mundo na atualidade milhares de tipos de fundos de investimentos e investidores individuais. Os nomes são bonitos e pomposos: Privaty equity, angel investor, hot money, fundos de toda ordem, investidores particulares, e por aí vai.

Não apenas indicadores já anunciam, mas até mesmo mensagens indiretas apontam potenciais inovações de sucesso que podem ser investidas. Logo, seria importante um foco de investimento visando algo atual, mesmo que não exista ainda. Ao olharmos essas empresas de aplicativos em sua maioria quase esmagadoras estão calcadas no único lucro da publicidade, não havendo nenhuma outra fonte de receita. Algumas são mais sólidas, as quais vendem informação consistente, e possuem uma real inovação, mas mesmo estas tendem a ser ultrapassadas, cedo ou tarde, da noite para o dia podem se tornar obsoletas. Obviamente que este texto não quer ser contra essas tecnologias, esses novos modelos de negócios, mas deixar claro o conselho da vovó: O que vem fácil, vai muito fácil. Partindo desse conselho popular e válido aos negócios modernos, podemos dizer que as novas tecnologias calcadas em ciência não são nada fáceis, mas são um caminho tortuoso que quando alcançado, com certeza, dificilmente outros conseguirão alcançar, o que garante pela complexidade alcançada se proteger da concorrência. Resultando em um novo negócio, produto, processo ou insumo no mercado.

Empresas bolhas e negócios ainda inexistentes, apenas demonstrativos é um dos meios para se alcançar o que é difícil e ainda não existe. O esquema de se gerar empresas que ainda não tem clientes, não gera nada é uma tática comum no mundo dos negócios, porque é importante abrir o negócio o mais rápido até se chegar nos eventos rentáveis e de lucratividade. E onde habita os realmente negócios sólidos da atualidade que ainda não existe? Estes se encontram em um segredo realmente a mostra e acessível a qualquer um. Estão escondidos, mas acessíveis a qualquer um. Exatamente isso, estes estão habitando os livros de ciência, ou seja, livros e artigos de física, química, biologia e matemática. É nessas áreas que estão as inovações necessárias para a atualidade. A nova revolução industrial já começou e esta é calcada em ciência. Incluem-se a estas inovações a biociência, a nanociência, os sistemas de impressão tridimensional, a medicina inovativa.

O empreendedorismo é mais do que gerar renda e criar uma marca no mundo, mas é uma forma de distribuir renda e impulsionar a inovação de forma direta e indireta! Boa parte dos negócios tradicionais continuará a existir em sua maioria, porque as pessoas continuaram comprando determinadas coisas, mas para quem quer empreender na atualidade em negócios inovadores precisa olhar para coisas nada comuns, como a multidisciplinaridade conjunta de pacotes de negócios. Algo que podemos ver nas empresas automatizadas e que envolvem uma conjuntura para funcionar, não sendo apenas um aplicativo ou software, inovações, customizações, mas é necessário mudar modelos de negócios físicos, customizando, entregando informações no lugar certo e em tempo, moldando os comportamentos e fazendo o melhor.

O plano de negócio comum, o mapa e rota tecnológica, o sumário de negócios, o protótipo e a patente são pontos nevrálgicos no início que possuem um espaço imenso a serem melhorados e modernizados! É praxe que a inovação está calcada em três pilares que compreendem a criatividade que não vale muito, o desenvolvimento do cenário inicial e das ferramentas que realmente custa muito tempo, dinheiro e energia, e por fim com a estratégia que é a ação inteligente de colocar as coisas em prática, normalmente esses últimos costumeiramente já pegam o bonde andando, e embarcam no melhor lugar. Como não criaram nada, tem tempo para criar estratégias e usar seu tempo para se posicionar como um bom boêmio, bem visto em público.

Não é nada difícil de compreender o quanto espaço, trabalho, serviço, áreas e melhorias existem a ser feitas com as novas indústrias, ciências, tecnologias e inovações sem limites! Há pessoas que dizem que o que havia para ser inventado já foi! Uma mentalidade curta e restrita diante da imensidão que está por vir, e não tardará em surpreender esses pessimistas e a muitos acomodados. Os investimentos apressados, como o hotmoney certamente não possui qualquer interesse nesses embriões de negócios, porque ainda são bondes andando lento demais, devido a sua complexidade, restando poucas opções de investimentos nessas áreas embrionárias. No entanto, nem tudo está perdido! As ações individuais, pequenas ações por menor que sejam estão caminhando, produzindo para o acumulo das peças que farão esses bondes, e esses acúmulos, sejam por artigos, experimentos amadores, ideias lançadas, divulgações, protótipos iniciais, e centena de outras coisas estão formando bolas de neve, com a vantagem das redes para divulgação atual.

Essas bolas de neve compreendem as ciências biológicas, nanotecnologia, engenharias modernas, inteligência artificial, sistemas de navegação, simuladores de alto processamento, computação quântica, VANTs veículos aéreos não tripulados, nanomedicina, neurociência e uma infinidade indescritível mais que estão apenas nascendo. Essa bola de neve que está se formando irá remodelar completamente cidades, países e continentes. E aquele que não possuir cenários mínimos para atuação cairão na morbidez econômica. São cenários para pessoas agirem que farão a diferença e não agentes promotores, muros altos, espertalhões, gente de sempre. A disponibilização de cenários de atuação será a alavanca dos países modernos, para a inovação e o sucesso econômico.

Este resumo demonstra o quanto o Brasil aniquila qualquer possibilidade neste quesito, já que não há qualquer chance de isso ser desenvolvido sem o enfrentamento da burocracia massiva e da indiferença de todos, basta notar um pequeno exemplo que é a burocracia jurássica para registrar uma miséria patente. Além disso, temos que o fornecimento de cenários está diretamente ligado ao fazer, interagir, está ligado com o conhecer e a ação! Exatamente isso, o fazer está ligado com o conhecer e a ação, porque racionalmente entender os processos e operações é necessário antes da ação. Inventar, criar e inovar é algo baseado em tentativa e erro, quem quer solução imediata é nada mais que um acomodado no que já possui, conhecedor do que já herdou e não quer mexer no que já caiu em suas mãos pronto. Fazer é baseado em tentativa e erros baseada no passado de estudos e aquisição de conceitos, estudo e planejamento.

Há casos e mais casos de pessoas passadas para trás, trabalhos de anos perdidos, tudo baseado em um sistema político e econômico falido, concentrador de renda e calcado na exclusão das pessoas, com sistemas institucionais calcados na burocracia, como é o caso de aquisição de patentes que é tão burocrático e caro que nem merece ser comentado. Países como o Brasil estão calcados na ideia da Casa Grande e Senzala, ao qual se pode comparar o Brasil como uma fazenda no qual os coronéis concentram tudo em poucas casas grandes, e o restante deve ou fica nas senzalas. Brasília é uma casa grande, é um exemplo claro de exclusão e isolamento.

Veja que não basta inventar! É necessário estratégia e ação! As técnicas administrativas modernas e estratégicas não considera a ferramenta em si, mas apenas a estratégia para fazer uso produtivo das ferramentas, o caso de se pegar o bonde já andando, ao qual se pode gerar uma bolha de negócios com as inovações modernas ainda não existentes. Porém a realidade mostra que a maioria dos investimentos só priorizam modinhas que resultem em ganhos imediatos e não sólidos, como vemos os casos de aplicativos. Se há uma coisa que não falta do Brasil é dinheiro e riquezas naturais.

Porém, onde está esse dinheiro? Certamente está preso pela concentração de renda cultural Brasileira de séculos, ao qual o estado prende 50% e as grandes corporações cumplices do estado prendem os outros 40%, sobrando menos de 10% para todo o país produtivo e não produtivo. Fazendo uma conta rápida, não precisa e aparentemente absurda, mas que é a realidade, pode ser demonstrada como segue: é impressionante como o dinheiro de investidores na atualidade é apenas para investimento hotmoney, somente investem em negócios que gerem lucros imediatos, em negócios não sustentáveis como é a maioria quase absoluta dessas empresas de aplicativos e outras similares. Não chegam nem a pegar o bonde andando, mas já é pegar o bonde quase no final da linha. Ao que se observa é que a maioria dos investidores não se importa e não quer investir em negócios mais complicados, embrionários, aparentemente incertos, mas que são realmente sustentáveis a longo prazo como é o caso das novas ciências como as novas fontes de energia, inovação em fontes de energia sustentável, nanotecnologia, biotecnologia, ciência do controle e centenas de outras ciências para potencial inovação.

Uma coisa que o mercado demonstra é que há lugar para todos mercado, desde que hajam cenários, investimentos, pouca burocracia e ação, mas quando a cultura é retardatária, querendo manter as mesmas ideias, conceitos e táticas de estagnação que funcionaram a tempos atrás, tudo tende a morbidez econômica e consequentemente o fracasso. Logo, podemos finalizar dizendo que dinheiro no mundo não falta, inclusive no Brasil, o problema é algumas pessoas tomarem vergonha e agirem, gerando os cenários iniciais para que as pessoas possam agir, para que essas pessoas comecem a construir os trilhos aos bondes, sem o qual a bola de neve da nova revolução industrial não existirá.

Análise por Edilson Gomes de Lima – Trecho do livro: nanotecnologia & negócios.
Imagem: Ken Teegardin

Informações do Autor

Edilson Gomes de Lima

Professor Edilson Gomes Lima – Pesquisador nas áreas de ciências e inovação. Biologista e ambientalista. Palestrante em escolas e faculdades para alunos em formação. Autor de vários livros sobre ciências e empreendedorismo.

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