Carta aberta sobre o Pride às famílias e cidadãos brasileiros

Para fazer uma carta aberta sobre o Pride às famílias brasileiras, preciso começar por mim. Meu nome é Théo e eu tenho 23 anos. Nasci numa família bem humilde (hoje são os atuais emergentes, novos ricos), bem religiosa e tradicional. Como muitos outros bebês, eu era alegre e feliz, aliás, quando vejo as fotos, imagino como eu trazia alegria comigo aonde ia. Eu era cercado de amor e de carinho, sempre fui mimado por todos, pai, mãe, avó, tios e tias.

Nessa história perfeita, houve alguns probleminhas. Conforme eu crescia, alguns determinados gostos e trejeitos meus começaram a aparecer. Eu tinha um jeito um pouco mais delicado, um pouco mais expressivo do que o dos outros meninos e era comum eu ter mais amigas do que amigos. Eu não achava isso estranho, afinal, eu adorava, por exemplo, ver minhas primas e me divertir com elas. Porém, meus pais não estavam muito contentes com a situação.

Durante a minha infância e adolescência, lembro-me de minha mãe corrigindo todos os meus gestos e falas. A cada 5 palavras que eu dizia, ela me cortava dizendo que eu deveria parar de falar “arrastado”. Com o passar dos anos, meus pais ficaram mais rígidos comigo e, para piorar, eu ainda sofria diariamente bullying na escola e não tinha ninguém para falar sobre isso.

Como eu cresci na igreja protestante, todo assunto envolvendo a homossexualidade era proibido, e só o pensamento sobre esse assunto fazia meus pais terem pesadelos. No entanto, apesar de eu sempre saber que eu era diferente dos outros rapazes, para mim, isso não era um problema, eu sempre encarei essa diferença com naturalidade, como uma parte de mim, da minha pessoa.

Um pouco mais velho, quando eu tinha aproximadamente 12 anos de idade, eu já estava ciente de que eu era gay e, mais importante, eu sabia que tinha de manter esse assunto em segredo, pois meus pais acabariam comigo se eles descobrissem…, o que foi exatamente o que aconteceu. Aos 14 anos, a verdade sobre minha orientação sexual foi descoberta. Não importa como, mas sim o que eles fizeram depois disso.

Minha vida após esse evento acabou. Eu, verdadeiramente, não consigo lembrar alguma memória positiva da minha adolescência até eu ter aproximadamente 18 anos. Todos os dias eram cheios de brigas e de trocas de palavras de ódio, todos os dias eu era atacado por todos os lados. Tive minha privacidade violada, minha liberdade cerceada e minha felicidade tomada.

Porém, sempre escutei que uma hora a confusão acaba, que uma hora a família entende que não há nada que se pode fazer para mudar. Na minha casa, isso era mentira. Como meus pais eram religiosos, eles mudaram o status de cristãos para fanáticos. Eles começaram a acreditar em restauração sexual, afinal, Deus é o todo poderoso e o único com poder para mudar quem eu sou, e Ele iria me mudar com toda certeza.

Com esse fim, fui submetido à terapia de conversão. Foram 3 psicólogos diferentes e 5 anos da minha vida. Cada dia na terapia, uma parte de mim ia embora. E, para acrescentar, começou-se o acompanhamento pastoral em prol da mudança da minha orientação. Cheguei ao ponto de realmente acreditar que eu conseguiria mudar quem eu era.

Todavia, os meses e os anos passavam e eu não mudava. O bullying piorava (eu já recebia ameaças e, ocasionalmente, agressões físicas), meus pais ficavam cada dia mais monstruosos comigo, até que, então, os efeitos desses anos de tortura começaram a aparecer. Aquela criança alegre tinha morrido completamente, ela perdeu a simpatia, o carisma e as habilidades de socializar. Ela desenvolveu transtornos de ansiedade e de personalidade, sem contar outros efeitos físicos, como uma paralisia de Bell (popularmente conhecida como paralisia facial).

Não é necessário entrar em detalhes sobre os eventos ocorridos, acredito que esse tipo de história deve continuar enterrada. Contudo, é preciso destacar que eu cresci aprendendo a ter vergonha de mim mesmo, aprendendo que eu era uma aberração, que eu tinha “uma doença da alma”. Eu precisei de anos para poder aceitar quem eu era de verdade, e, até hoje, há desafios constantes em me amar plenamente. Às vezes, eu me pego imaginando como minha vida teria sido se minha família tivesse me abraçado e amado como eu sou, tivesse escolhido o amor que acolhe e aceita, e não o “amor” que destrói e machuca. Às vezes, vejo amigos que não tiveram nada do que eu tive/tenho na vida, mas que tiveram famílias que os amaram e apoiaram e fico com uma enorme inveja.

Assim, após contar um pouco da minha história, gostaria de falar sobre o Pride, evento ocorrido em várias cidades no Brasil durante esse mês. Muitas pessoas, ao ouvirem falar do evento, apresentam resistência e raiva, opõe-se veemente. Acredito eu que a reação desses indivíduos surge da falta de entendimento do porquê de esse evento existir. Este não é sobre escancarar uma orientação sexual “na cara dos outros”, não é sobre querer direitos especiais, é sobre evitar que histórias como a minha se repitam. É sobre conscientizar as pessoas de que amor não é deve ser rotulado ou julgado, e sim aceito.

Se contarmos todas as vidas destruídas por causa da homofobia, transfobia e preconceitos de gênero, seria impossível para qualquer indivíduo no mundo dormir de consciência limpa. Ao pensar em cada jovem que perdeu sua vida, sua felicidade, sua essência por conta do preconceito, não consigo entender como alguém pode ser contrário ao Pride. Como ser opositor a um movimento que quer igualdade e amor na vida das pessoas?

Termino esse texto dizendo que apoiar o Pride é evitar que jovens “Théos” passem por traumas graves e desnecessários, que deixam sequelas para toda a vida. É evitar que jovens percam sua essência, sua alegria de viver. É diminuir as taxas de suicídio entre LGBTs e diminuir as taxas de bullying e agressão a minorias. É conscientizar pessoas e cidadãos sobre a criação saudável dos seus filhos, é orientar e pregar o amor a todos. A verdade é que nós precisamos mudar esse cenário de ódio, acabar com a segregação por orientação sexual.

Nós precisamos do Pride.

Théo

Informações do Autor

Ricardo Bibiano

Mineiro, Letras e professor de redação. Publico textos há aproximadamente 1 ano. Socialite falido.

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