Superação: quando a corrida ajuda a transformar uma vida

No dia 1º de setembro de 2010, Lady Karine teve um colapso. Aos 22 anos, a jovem estava no trabalho quando, no espaço de um segundo, o corpo parou de responder: não havia mais movimentos, nem sensibilidade na pele. Quando o marido de Lady, o técnico de informática Valmir Mathias, chegou ao hospital, Lady só conseguia mexer os olhos.

Começava naquele dia uma luta que duraria anos, mas que teria o poder de transformar completamente a vida do casal. Depois de três dias no hospital, ela conseguiu recuperar os movimentos acima da cintura. Os médicos não conseguiam descobrir a causa – todos os exames realizados traziam mesmo resultado: ela sofria de um Transtorno Dissociativo do Movimento, em que o cérebro “esquece” algumas de suas funções e, com o tempo, corre-se o risco de morte, já que ele pode, por exemplo, esquecer de respirar. O maior problema era que, apesar do diagnóstico, nenhum médico conseguia descobrir a causa do transtorno.

12-editada“Eu havia perdido meu pai um ano antes, e foi muito cedo, acho que não soube lidar. Nunca encontramos uma causa física, mas acredito que foi resultado desse trauma – algum tempo antes do colapso comecei a ter sensações estranhas de formigamento nas pernas, e quando acordava eu sentia meu corpo encolhendo, puxando, com uma sensação de sufocamento. Várias vezes acordei e, por uma ou duas horas, não sentia minhas pernas; até que passava e eu conseguia ir trabalhar. Acho que foi a forma que o meu corpo encontrou de processar a depressão que eu havia desenvolvido”, considera Lady. Após o colapso, ela ainda acabou desenvolvendo arritmia cardíaca, além de aumentar o peso em 20 quilos, em grande parte por causa dos remédios.

Mesmo assim, o casal nunca perdeu a esperança, nem o bom humor – o último, aliás, foi essencial para lidar com o período de um ano e meio em que ela passou em uma cadeira de rodas, com as consequentes dificuldades financeiras, a impossibilidade de voltar ao trabalho e um dos episódios mais marcantes dessa época: em 2011, uma enchente que atingiu a casa em que o casal mora com as duas filhas – uma de três e a outra de sete anos de idade. “A casa encheu de lama, e ele teve que cuidar de mim, na cadeira de rodas, e da mais velha, na época com dois anos, enquanto tentava limpar tudo sozinho. Quando vi isso, me joguei no chão e comecei a “varrer” a lama arrastando com o corpo. Não podia mais aceitar aquela situação”, relembra Lady.

 

O início da virada16-editada

Quatro meses depois do episódio, Valmir começou a praticar corrida. A esposa, após a recomendação médica para realizar exercícios físicos como auxilio para tratar a arritmia, fez uma promessa: se conseguisse recuperar os movimentos das pernas, acompanharia o marido no esporte. Promessa que, brinca ela, no fundo não era tão séria assim.

Após meses intermináveis de dificuldades, fisioterapia e tratamentos, os movimentos voltaram. E Valmir não deixou por menos: obrigou a esposa a cumprir a promessa. “Começamos caminhando por dois minutos e correndo por 15 segundos. Aos poucos, fomos aumentando, mas desde o início ela não queria, parava, chorava – as dores nos tendões eram muito intensas, mesmo só apoiando os pés no chão”, conta o técnico de informática.

Aos poucos, Lady começou a se sentir segura novamente. A depressão era superada lentamente, e a luta diária contra os bloqueios a fortaleceram. Valmir a obrigou a participar da primeira competição, com uma distância de 5 Km, que foi marcante pelo simples fato de Lady conseguir terminar a prova, com todas as dores e dificuldades.

Na prova seguinte, o marido e os amigos descobertos no esporte fizeram com que ela recebesse um Troféu de Superação, como forma de incentivo. E deu certo: Lady ganhou gosto pela corrida e, hoje, o casal já tem uma coleção de medalhas – Valmir sozinho já soma mais de 90 troféus.

E se a corrida de rua parecia um desafio, hoje o nível já é bem maior: ambos se apaixonaram pela competição em Corridas de Montanha, provas que incluem quilômetros de subidas, descidas e obstáculos naturais em montanhas de centenas de metros de altitude.

Lady, que está começando a ganhar os próprios troféus, conta que a principal dificuldade é conseguir patrocínio para o esporte, já que as inscrições são caras. Mesmo assim, a dedicação vale a pena. “No começo, parece que quem faz esse tipo de esporte é louco. Depois que você experimenta, nasce uma paixão que te faz querer ir todos os dias. Não sei se é por causa do que passamos, mas cada obstáculo superado traz uma sensação incrível. Sempre digo que o problema não é estar em uma cadeira de rodas, perder uma perna ou um braço. Tem gente que está em uma cadeira de rodas a vida inteira e não sabe. Problema mesmo é ter saúde, ter pernas, e não usar”.

 

Images: SimoneSeguro/EsportenaFoto e Arquivo Pessoal

Informações do Autor

Bruna Borgheti

Jornalista formada pelo Bom Jesus/Ielusc, de Joinville-SC, é acadêmica do curso de Letras da UniCesumar. À frente da redação das publicações do Grupo Dom7, faz a edição e curadoria de conteúdo do site e já teve suas aventuras pelo mundo corporativo, mas gosta mesmo é de um documento de Word em branco. Tem sugestões pra dar? É ela que você está procurando. Entre em contato pelo [email protected]

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