Cultura da Estética (pt. 2): A dicotomia entre Interno e Externo

A partir do momento em que o indivíduo se insere na sociedade como agente participativo das relações sociais, ele encara a popular dicotomia entre o lado interno e externo do ser humano. A crença popular nos diz o tempo todo para nos preocuparmos com o interior, pois ele nos acompanhará para sempre. Já a mídia, especialmente a televisiva, impulsiona os indivíduos a correr atrás de padrões estéticos absurdos, sob a falsa promessa de felicidade. Deve-se, portanto, entender o que cada um desses atributos é para, enfim, alcançar um equilíbrio saudável.

Descreve-se, inicialmente, o exterior como o resultado da combinação genética de nossos ancestrais. Biologicamente falando, há inúmeros traços que juntos formam nossa aparência física. Do outro lado, há o interior. Nós, seres humanos, como apresenta a teoria Bakhtiniana, somos o produto das inteirações sociais, dos diversos discursos ao nosso redor. Em outras palavras, nosso ser interior é composto por nossas experiências, vivências e momentos, tanto positivos quanto negativos.

Agora, a questão chave para compreender essa ligação entre externo e interno está na relação que eles mantêm com a formação social da pessoa. O interior tem o poder de transbordar qualquer aparência exterior, isto é, de tornar belo aquilo que, de acordo com convenções sociais, não é. Em oposição, o exterior mantém um relacionamento similar. Ele tem a habilidade de mascarar o interior; muitas pessoas, sejam elas belas ou não, têm sua essência apagada por causa de sua aparência. Normalmente, em cada pessoa, um dos atributos sai ganhando.

Exemplifica-se o que foi dito acima da seguinte maneira: pessoas com coeficiente de beleza abaixo da média, muitas vezes, são deixadas de lado por conta exclusiva de sua aparência. Vale ressaltar que o inverso também acontece, muitas pessoas consideradas bonitas são descartadas por serem taxadas de superficiais e/ou vazias. Há, também, a possibilidade de o interior resplandecer bastante a ponto de ofuscar uma beleza exterior baixa. Ou seja, ambos, interno e externo, têm o poder de dominar o que as pessoas pensarão de nós.

No entanto, é preciso inserir esse debate, quase que maniqueísta, no cenário social contemporâneo. De fato, é possível apontar uma relação de dependência dos seres humanos com a imagem. Criou-se um tipo de submissão à estética que chega a ser doentia, afinal, ninguém mais se importa com o interior, dá-se valor apenas à estética. Tal situação provoca uma liquidez muito grande nos relacionamentos, não importando mais com quem se está desde que seja alguém belo.

Por conseguinte, vê-se o gigante desastre em que se encontram as relações interpessoais. As preocupações em resolver problemas foram perdidas, hoje, decide-se apenas bloquear ou excluir alguém dos círculos sociais. É engano acreditar que a valorização do que se é por fora em detrimento do que se é por dentro não causou esse problema (pode não ser a única causa, mas é uma das maiores).

Dessa maneira, fica nítido um desequilíbrio societário, que, francamente, precisa ser revisto pelas pessoas. É imprescindível que estas passem por um movimento de desconstrução de valores, de desapego da imagem. Entretanto, esse processo, apesar de extremamente necessário, é igualmente delicado, pois a imagem, apesar de superficial, é importante para um convívio sadio em sociedade; o que deve acontecer, em vista disso, é um balanceamento entre a valorização do eu interior e exterior, visando a alcançar um relacionamento simbiótico.

Deveras, acredito que simbiose é o termo mais adequado a descrever essa situação, visto que esse fenômeno pode ser descrito como uma relação íntima entre dois elementos na qual ambos são beneficiados. E é exatamente isso que devemos procurar, um relacionamento tão íntimo entre nosso eu superficial e nosso eu substancial que ambos saiam no lucro. Para mais, quando esse estado é verdadeiramente atingido, a pessoa ganha um aspecto quase que angelical, ela se torna especial entre todos ao seu redor.

Ressalta-se que o que quero dizer não é nenhum clichê de blog sobre como a aparência engana e acaba (aliás, quando bem cuidada, ela dura a vida toda), mas mostrar que, ao atingir esse estado de sintonia, tornamo-nos agradáveis, felizes e interessantes. Uma vez conheci alguém que acredito ter chegado a esse estado de simbiose, não tenho nem palavras para descrever o quão incrível foi essa experiência, pois nunca fiquei tão encantado.

Por fim, digo o seguinte: o maior medo do indivíduo é ser julgado pelos seus semelhantes. Façamos então uma reflexão sobre nossos interesses, eles têm sido por todos os aspectos das pessoas ou apenas pelos externos? Nós estamos reforçando padrões ou estamos desconstruindo-os? Cabe, decerto, pensar: individualmente, estamos à procura de quê?

Imagem: Pexels

Informações do Autor

Ricardo Bibiano

Mineiro, Letras e professor de redação. Publico textos há aproximadamente 1 ano. Socialite falido.

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