O que um frei franciscano pode te ensinar sobre bom desempenho

Numa conversa entre filósofos e físicos não é incomum escutar a referência a uma conhecida máxima: pluralidades não devem ser postas sem necessidade (em latim: pluralitas non est ponenda sine neccesitate). Esse princípio é conhecido como “a Navalha de Ockham”, em homenagem ao autor da frase, o frei franciscano William de Ockham (Inglaterra, 1285-1347).

Embora sua tradução coloquial para os corredores da empresa pudesse ser “vê se não complica as coisas sem necessidade”, o conceito é encarado, na filosofia e na ciência, como um estímulo à busca de respostas simples, de modelos com o menor número de variáveis possível.

No extremo deste pensamento está a Teoria de Tudo (ToE – Theory of Everything), que representa o desejo de algumas correntes de pensadores de encontrar uma única teoria capaz de explicar todos os fenômenos do universo (na física quântica chamada de “teoria do campo unificado”).

Máxima da Navalha de Ockham: o frei manda cortar tudo que não for necessário

Ken Wilber, conhecido pensador e criador da Psicologia Integral, apresenta uma visão que pode ser considerada mais mística sobre o assunto em seu livro “Uma teoria de tudo” (Ed. Cultrix, 2003). Embora pouco respeitado pela comunidade acadêmica, Wilber é uma referência relevante quando se trata de pensamento holístico.

O termo holístico vem do grego “holos” que significa “todo”, e o pensamento holístico se contrapõe ao reducionismo, uma corrente filosófica que defende que um “todo” complexo pode ser entendido a partir da análise de cada uma de suas partes. Para os holísticos, a única maneira de compreender uma “parte” é conhecendo o todo, já que separada do “todo” a “parte” deixa de ter sentido.

Desde Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), afirmando que o todo é maior do que a soma das partes, até o filósofo francês Augusto Comte (1798-1857), que privilegiava a síntese (todo) à análise (detalhe), o pensamento holístico vem marcando sua presença, e o pensamento socialmente responsável é seu reflexo.

Uma empresa não existe isolada de seu mercado, da sociedade e do planeta. Se tentarmos compreendê-la isolada deste contexto, não estaremos estudando a empresa. Se planejarmos nossas ações sem considerar esse contexto, elas não serão eficientes a longo prazo.

E ainda que ignoremos esse contexto, ele não nos ignorará.

O profissional de marketing tem um papel essencial na compreensão dessa perspectiva e deve refleti-la em suas ações, contribuindo para que seja incorporada por toda a organização. Trata-se de uma tarefa de dimensões colossais, considerando todas as partes envolvidas.

Mas, voltemos à Navalha de Ockham. O princípio recomenda que “pluralidades não devem ser postas sem necessidade”. Ora, o contexto é plural, mas também é único. E para a felicidade do profissional de marketing, já existe uma “teoria integradora” à sua disposição, traduzida em um conceito único que se aplica à compreensão de todas as partes.

Retomemos a definição da AMA – American Marketing Association de 2007:

“Marketing é a atividade, conjunto de instituições e processos para criar, comunicar, distribuir e efetuar a troca de ofertas que tenham valor para consumidores, clientes, parceiros e a sociedade como um todo” (AMA, 2007).

Dessa definição nasce a possibilidade de inferir o papel holístico do marketing. Tomemos a definição de estratégia sustentável:

“Uma estratégia sustentável é aquela que leva em consideração as necessidades e interesses dos stakeholders e é capaz de garantir os resultados previamente acordados (ou desejados) pelas partes.”

Colocadas lado a lado, é fácil perceber a complementariedade sinérgica dessas duas definições. O pensamento único e holístico que deve animar o profissional de marketing e pautar todas as suas ações é simples: “gerar valor para todos os stakeholders”.

Marketing holístico, portanto, é mais do que usar os diversos canais de forma integrada. É o marketing pautado por esse pensamento integrador de todas as ações.

 

Flávio Ferrari é sócio da UNIT34 – Decisões Estratégicas. Representante no Brasil da Senvendots, Coach associado do CCL – Center for Creative Leadership. Consultor especializado em Gestão Estratégica, Processos de Decisão, Inovação e Desenvolvimento de Equipes, com mais de 30 anos de experiência executiva nas áreas de Inteligência Competitiva, Marketing e Comunicação. Reconhecido por sua criatividade aplicada ao desenvolvimento de negócios e como um dos primeiros “cool hunters” da América Latina. Divide seu tempo livre entre escrever crônicas e explorar filosofias orientais.

Imagem: flickr/Tim Taylor

Informações do Autor

Bruna Borgheti

Jornalista formada pelo Bom Jesus/Ielusc, de Joinville-SC, é acadêmica do curso de Letras da UniCesumar. À frente da redação das publicações do Grupo Dom7, faz a edição e curadoria de conteúdo do site e já teve suas aventuras pelo mundo corporativo, mas gosta mesmo é de um documento de Word em branco. Tem sugestões pra dar? É ela que você está procurando. Entre em contato pelo [email protected]

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