Entrevista com Marcos Piangers – Apresentador do Pretinho Básico

Mais de 80 palestras em 2015, duas palestras no TEDx, milhões de views no Youtube e 5 milhões de ouvintes como um dos apresentadores do programa de rádio Pretinho Básico, fenômeno de audiência já premiado pela Apple. Essa é uma pequena parte das conquistas de Marcos Daniel Piangers Barros que, aos 35 anos, é hoje o responsável pela inovação nas rádios do grupo RBS e coordena a área digital, de vídeo, branded content e impressos da Rede Atlântida. No ano passado, ainda entrou para o seu currículo as mais de 60 mil cópias vendidas do livro O Papai é Pop (Belas Letras, 112 p.), um conjunto de crônicas sobre as vivências e descobertas da maior aventura de sua vida: ser pai de Anita e Aurora, de 11 e 4 anos.

Essa vida plural e atarefada é quase um reflexo da sua personalidade. Carismático e fissurado por tecnologia, Piangers brincava de rádio desde pequeno e acabou na turma de jornalismo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) em 1999 porque a mãe não tinha condições de arcar com o curso que realmente lhe atraia: a Publicidade, seleiro ideal para desenvolver sua criatividade pulsante, mas que, na época, só era oferecida em faculdades particulares na cidade em que Piangers nasceu e morou até a vida adulta, Florianópolis-SC.

A mudança de rumo acabou servindo a esse propósito e também ampliando seus horizontes. Desde o início do curso, foram anos de prática em rádio, internet, jornal e TV e incontáveis projetos que reforçaram suas bases e seu perfil de early adopter (consumidor que é um dos primeiros a adotar novos produtos de tecnologia, muito antes da popularização) para construir uma carreira de sucesso. O resultado é o conhecimento e experiência que você confere abaixo, em entrevista exclusiva concedida à Dom7 Empreender.

 

Dom7 entrevista Marcos Piangers

Piangers - Pretinho Básico - Credito Edu Ferrari
Imagem: Edu Ferrari

AE – Como surgiu a oportunidade de trabalhar com o Pretinho Básico, e como é o processo de produção e brainstorming dos programas?

Piangers – Eu nasci e cresci em Florianópolis, e em 2006 fui chamado para ir para Porto Alegre trabalhar na rádio Atlântida. O Pretinho Básico começou um pouco depois, quando o programa expandiu para Santa Catarina. Já o processo de criatividade, brainstorming do grupo, é bem variado. Temos uma produção que coleta os conteúdos que os ouvintes enviam por e-mail – ou seja, a pauta é 80% ou 90% definida com base nos e-mails que recebemos. Isso significa que é a audiência que nos pauta, o que promove um processo muito interativo, interessante; dessa forma, ela se sente representada.

Além disso, em nossas reuniões de brainstorming trabalhamos a criatividade da seguinte forma: quando surge qualquer desafio, problema ou questão criativa, fazemos uma reunião e depois cada um vai para a sua casa, descompressa, sozinho – não acreditamos em reuniões longas nem brainstormings que viram madrugadas, não existe essa história de só sair da reunião quando o problema estiver resolvido. Apresentamos o problema, depois todo mundo busca a solução individualmente. Um ou dois dias depois, nos reunimos novamente para jogar as ideias – é uma espécie de brainstorming ao contrário, trabalhando muito o bom humor. Acreditamos que ele ajuda muito porque pessoas mais inseguras se sentem mais confortáveis para dar sua opinião em um ambiente descontraído.

 

AE – Em sua opinião, o que transformou o Pretinho Básico em um fenômeno de audiência?

Piangers – Sucesso é algo muito difícil de explicar. As pessoas, depois que o sucesso está estabelecido, tendem a criar algumas teorias, mas são teorias que muitas vezes não são replicáveis. Tenho convicção de que o sucesso do Pretinho Básico tem a ver com o talento do Alexandre Fetter, um cara cuja carreira tem um padrão de sucessos; não tem como negar que ele sabe fazer programas neste formato, e acho que isso foi essencial para conquistar a audiência.

Outro ponto a se ressaltar são os talentos que foram reunidos aos poucos. Além disso, para manter essa audiência conquistada, eu diria que o importante é o perfil de renovações constantes no PB – sempre temos um personagem novo, um quadro novo, novas pessoas, e estamos sempre experimentando. A guinada para o digital também fez muito bem para o programa, através desse vertical conseguimos fazer com que a marca tenha penetração entre todos os públicos.

 

Imagem: Claudio Fonseca
Imagem: Claudio Fonseca

AE – Para você, qual é a melhor forma de conciliar a vida familiar com uma vida profissional pró-ativa?

Piangers – A palavra prioridade não tinha plural. Até pouco tempo, prioridade era prioridade, não era “prioridades”, entende? Então, depois de um tempo começamos a colocar a palavra prioridades no plural e achar que temos várias prioridades na vida, quando isso na verdade não existe. A minha prioridade, a minha única prioridade, é a minha família. Então, se o meu trabalho estiver atrapalhando minha família, eu vou trabalhar menos; se a minha profissão, meu lazer, minhas viagens, minha tecnologia, meu contato com o celular estiver atrapalhando minha prioridade, que é a criação das minhas filhas e a atenção à minha família, eu vou largar isso para focar na minha família.

As pessoas costumam valorizar muito o dinheiro, mas o dinheiro é algo que você vai ter, vai gastar e vai desaparecer da sua mão, eventualmente. Nunca vi ninguém no leito de morte pensando que deveria ter trabalhado mais. Eu vejo muitas pessoas no leito de morte dizendo que deveriam ter passado mais tempo com a família.

 

AE – Qual é a sua “previsão” para o futuro quanto à influência da tecnologia na vida pessoal e na estrutura das empresas? Como se adaptar a essas mudanças?

Piangers – Minha previsão é de que estamos só no começo da história. Somos a última geração que viu o mundo sem internet, então não conseguimos enxergar a grandiosidade disso. Eu comparo a nossa geração com a última que viu o mundo sem energia elétrica. No momento em que as pessoas que acendiam o lampião viram pela primeira vez uma luz ser acendida, eles pensaram “ok, mas vai demorar muito tempo até todos os cabos, postes, fios, condutores, hidrelétricas e termelétricas possibilitarem essa tecnologia chegar a todo mundo”. Hoje nós vivemos aquela mesma época em que uma última geração que acendeu o lampião já estava vendo a energia elétrica na casa de todas as pessoas, e eles ainda não conseguiam enxergar a grande possibilidade de coisas que ela permitiria.

Hoje, mais de 130 anos depois de essa tecnologia ter começado a ser disseminada na casa das pessoas e em todos os lugares, vemos como basicamente toda a nossa economia é baseada na energia elétrica. Eu acredito que a mesma coisa vai acontecer com a internet. Daqui a alguns anos, vamos ver essas gerações que estão chegando e que não percebem a internet como uma tecnologia, mas como default, como padrão, algo com o qual elas já nasceram acostumadas.

Isso é chocante, é disruptivo porque temos a ilusão de que ainda vai existir a advocacia, a arquitetura e a engenharia longe da internet, mas daqui a 20 ou 50 anos não haverá profissão alguma longe dela. Todas serão impactadas pela internet, as pessoas vão consultar advogados através de sites, aplicativos ou inteligência artificial, e veremos engenheiros utilizando a impressora 3D e a internet para construir casas, lugares e cidades de uma forma muito mais assertiva e muito mais inteligente do que conseguimos conceber hoje.

 

“Acredito que todos os profissionais que se adiantarem e conseguirem abraçar a internet e a possibilidade de distribuição de conteúdo e serviço para todas as pessoas de forma barata, acessível e no mobile terão alguma vantagem”. – Marcos Piangers

 

AE – Quais são as tendências que já são realidade em países mais desenvolvidos, e ainda vão chegar por aqui?

Piangers – Para começar, o Snapchat é maior do que televisão aberta, hoje, nos EUA. As pessoas acompanham jogos de futebol americano, festivais e eventos no Snapchat em maior número que os espectadores de alguns programas de televisão aberta. Isso é chocante, incrível. Vemos muitas plataformas de transmissão ao vivo nos EUA e isso já é uma tendência lá fora. Vemos a mídia tradicional ganhando muito dinheiro com transmissão ao vivo e talvez isso vá transformar como acontecem as transmissões, já que hoje qualquer pessoa sentada na arquibancada por fazer isso, narrando um jogo para os amigos, por exemplo.

Os jovens, hoje, assistem mais Youtube do que televisão aberta, conhecem mais as estrelas do Youtube do que as estrelas da novela Malhação. Isso significa que, em termos de consumo de ficção ou de comunicação on demand, e se isso acontecer também em eventos ao vivo, isso será um baque gigantesco para a televisão aberta, que é hoje a fatia da mídia tradicional que mais tem participação no bolo publicitário.

Outras tendências lá fora são o carro autônomo, que por enquanto simplesmente inexiste no Brasil; a questão de economia de compartilhamento, que aqui no Brasil ainda não abraçamos com toda a força; e há lá fora também uma tendência de nichos – existe o Netflix das novelas mexicanas, o Netflix dos animes, o Youtube dos jogos de computador (Twitch)… É uma série de tendências de mídia e tecnologia que ainda devem se desdobrar aqui no Brasil, até porque esses caras estão ganhando muito dinheiro.

 

AE – E qual é o próximo passo?

Piangers – Eu prevejo a inteligência artificial se aprimorando. Hoje, presumem que a inteligência artificial ainda esteja na casa dos dois anos de idade. Veremos cada vez mais e mais investimento nela, e na interação através de chat. Em breve, poderemos pagar uma conta através do WhatsApp, mandar dinheiro para os amigos através do Facebook Messenger e chamar um Uber através do LINE (onde isso já acontece, aliás). Ou seja, os aplicativos que já conhecemos serão uma plataforma para diversos outros serviços.

 

Imagem: Douglas Costa
Imagem: Douglas Costa

AE – Se o crescimento e evolução constantes são tão essenciais para o sucesso de qualquer empresa, por que essa migração ainda é tão difícil para boa parte delas quando o assunto é tecnologia?

Piangers – A tecnologia sempre nos deu medo. Existe uma história maravilhosa que ilustra isso. Quando as pontes começaram a ser construídas, as empresas responsáveis, para provar que as pontes eram seguras, costumavam fazer demonstrações utilizando elefantes. Era uma forma de dizer “olha, pessoal, podem passar que a ponte não vai cair, olha quantos elefantes ela consegue segurar!”. Basicamente, é nesse momento que estamos com a tecnologia. Não confiamos muito no Google, no Facebook, achamos que a nossa privacidade está sempre em cheque. Ao mesmo tempo, já entregamos todos os nossos dados, certo? E aparentemente todos estão vivendo bem com isso.

Daqui a algum tempo, teremos que conviver com inteligência artificial, máquinas mais inteligentes que a gente! E aí? Temos um medo terrível de tecnologia porque achamos que seremos dominados por ela, e que a tecnologia vai nos matar de forma violenta. Historicamente, isso eventualmente aconteceu. Essa é a má notícia: algumas pontes caíram, alguns aviões caíram, e alguns carros matam pessoas. Mas aparentemente lidamos bem com isso e preferimos que a tecnologia evolua, ao invés de o medo nos paralisar.

 

AE -Quais são os mitos sobre o processo criativo e a motivação de equipes que atrasam a vida das organizações?

Piangers – Primeiro, se você quer ter uma empresa criativa, acabe agora com a história de hierarquia vertical – aquele chefe que manda em todo mundo, que para atrás da cadeira das pessoas para ver se elas estão trabalhando, que proíbe navegar na internet e redes sociais e determina aquele horário rígido de trabalho no escritório.

Além disso, existem três pilares muito simples, criados pelo escritor Daniel Pink, que motiva criativamente qualquer equipe:  autonomia, domínio e propósito. A autonomia é a entrega das pessoas, a percepção de que elas estão trabalhando na hora em que são mais produtivas, no lugar onde elas são mais produtivas, e que elas são donas do tempo e da vida delas. Ou seja, primeiro você precisa contratar bem, contratar as pessoas certas, e depois deixa-las trabalhar, com autonomia. O domínio é muito incentivador para qualquer pessoa ou organização: é a sensação de estar aprendendo todos os dias, de estar sendo desafiado como profissional constantemente.

Você se sente mais humano quando cria – e isso não tem nada a ver com dinheiro, não é ele o fator central aqui. Por fim, quanto ao propósito: vale muito entender qual é o propósito da sua empresa no mundo, e disseminar essa cultura de propósito entre os colaboradores. O trabalho é muito mais prazeroso quando se sabe que ele vai ter um impacto positivo na vida de muitas pessoas, e se está em uma organização que pode fazer uma mudança social muito maior do que a pessoa sozinha poderia, e isso é extremamente motivador. O principal problema das empresas é justamente querer ter o controle sempre. Não há nada de motivador nisso.

 

AE – O mercado de consumo está se redesenhando. O que as empresas precisam fazer para ter sucesso dentro dos novos paradigmas?

Piangers – Se houvesse um segredo, alguém colocaria no Twitter e mudaria o mundo. Mas o problema é que são vários: primeiro, você precisa descobrir qual é o propósito da sua empresa. Marcas fortes têm taglines que as representam. Nike: Just do It; Red Bull te dá asas; Coca-Cola tem uma pegada de abra a felicidade, compartilhe a felicidade com a sua família ou com quem você gosta. Então, se você pergunta ao dono de uma empresa que é sua tagline, te garanto que todos vão dizer a mesma coisa: “atender o cliente com excelência aproveitando as oportunidades e entregando mais valor ao nosso público” (risos). Normalmente, as taglines das empresas são extremamente abrangentes, complicadas, em uma linguagem empresarial que não impactam ninguém. Então, você não está entendendo seu propósito, a razão de existir da sua empresa no mundo. Achar esse propósito é um segredo.

 

Imagem: Claudio Fonseca
Imagem: Claudio Fonseca

O Passo a Passo da Criatividade

 1 – Encontre sua “musa”: Este passo é sobre achar um gatilho criativo. Muitas pessoas não sabem, mas museu vem da palavra musa – ou seja, não é um lugar para se ver coisas antigas, mas um lugar em que você pode buscar inspiração, ou ver o resultado da inspiração de outras pessoas. Então, encontre sua musa – seja ela um vídeo, um livro, um canal de Youtube, alguém com uma boa conversa; isso não importa. Mas encontre-a.

 2 – Integre-a ao seu ambiente de trabalho: Leve sua musa para lá. Ideias não surgem em uma reunião de brainstorming de 12 horas seguidas, elas aparecem mesmo com um método que eu gosto muito, o Anotar e Relaxar. Primeiro, anote todas as suas ideias, esteja você no escritório ou em uma corrida. As chances de elas aparecerem multiplica se você desenvolver o hábito de anotá-las. E então, quando você estiver em um momento de bloqueio criativo, dê uma olhada nesse “arquivo” e crie novas conexões. Olhando várias ideias soltas juntas, é possível que uma nova ideia surja, e isso pode virar um novo negócio ou uma solução que você precisava naquele momento. Em um segundo momento, o que você precisa fazer é relaxar, não acredite que virando a noite pensando naquilo você vai resolver alguns problemas. É oxigenando a cabeça que eu espero que você seja mais criativo.

 3 – Repertório: O último ponto é colocar as ideias em prática, criando repertório através de ideias testadas. Muitas vezes as ideias que demoram muito para dar certo, custam muito dinheiro e tempo para serem colocadas em prática são ideias falidas. Então, você perde tempo E dinheiro. Teste suas ideias, veja o que funciona ou não, e não perca nenhum dos dois.

 

Imagem: Julio Cordeiro
Esta imagem: Julio Cordeiro || Imagem de capa: Claudio Fonseca

 

Informações do Autor

Bruna Borgheti

Jornalista formada pelo Bom Jesus/Ielusc, de Joinville-SC, é acadêmica do curso de Letras da UniCesumar. À frente da redação das publicações do Grupo Dom7, faz a edição e curadoria de conteúdo do site e já teve suas aventuras pelo mundo corporativo, mas gosta mesmo é de um documento de Word em branco. Tem sugestões pra dar? É ela que você está procurando. Entre em contato pelo [email protected]

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