O jornalista e o meio: sobre jogos de interesses no mundo corporativo

O jornalista e o meio, a fonte e o meio, a política e o meio: o interesse

No filme “Intrigas de Estado” observamos a relação de amizade, intimidade entre um jornalista e um congressista, e a dificuldade de ambos em separar interesses pessoais e/ou influências emotivas do profissionalismo que é exigido de cada um. A princípio, é possível inferir que a ética (ou a falta dela) é o principal problema (leia-se questão a ser discutida) dessa relação, não só na ficção, mas na realidade que a arte denuncia na insistente imitação.

A relação entre esses indivíduos, jornalista e fonte, é pautada por interesses de ambos os lados, pois a informação prestada pela fonte visa atingir um objetivo, que o jornalista precisa compreender para não se tornar um objeto de manipulação.

O jornalista Eugênio Bucci, em seu livro “Sobre Ética e Imprensa”, faz um importante apontamento da relação do jornalista com a fonte. Para ele, o jornalista precisa manter um distanciamento da fonte. Esse distanciamento não se refere, pura e simplesmente, ao espaço, mas à postura; às atitudes. Para Eugênio, quanto mais próximo se está da fonte, mais vulnerável se está, ou melhor, a capacidade de ver o todo é reduzida, simplificada e assim é possível perder ou deixar de fazer apontamentos cruciais.

Outro ponto interesse no referido filme é o fato do jornalista ter um “furo” de reportagem, mas não ter todas as comprovações necessárias para fazer a sua divulgação. O raciocínio do jornalista, suas inferências nem sempre podem ser colocadas como verdades absolutas ou usadas como ‘comprovação’ (leia-se evidência) de algo. Além das questões judiciais que uma publicação sem provas pode trazer, é preciso levar em conta que o jornalista também é influenciável, mesmo que indiretamente. A ética também precisa ser levada em consideração, pois, a informação pode contribuir de forma negativa no assunto tratado, ou em termos mais esdrúxulos: “a informação pode desinformar”.

A política sempre foi uma editoria conturbada, agitada, isso porque passa por diversos segmentos da sociedade, como: educação, segurança, saúde etc. Logo, é correto afirmar que um jornalista da área de política precisa estar atento a tudo que se passa ao seu redor e não somente ao que acontece nas ‘casas políticas’ (câmaras, congressos, etc.).

Em se tratando da relação do jornalismo com a política podemos atribuir o termo “Quarto Poder”. Esse termo faz uma alusão ao “Três Poderes” do Estado democrático (Legislativo, Executivo e Judiciário), que coloca a mídia como um poder de informar, influenciar a sociedade, sendo a mídia tão importante quanto os outros poderes. Partindo dessa perspectiva, analisando Emanoel Barreto, em seu texto “Jornalismo e Política: a construção do poder”, ele coloca o jornalismo político como algo de suma importância, pois, traz ao leitor que não tem acesso às “praças políticas” a informação que o norteia (leia-se ‘que o atinge’), sendo “a notícia como equivalente da realidade”. Dessa forma, o jornal (leia-se mídia) é uma ferramenta de difusão da informação que, por vezes, parecer estar exilada a um grupo social. Entretanto, Barreto não coloca o jornalismo político, nem os outros gêneros, pareado ao positivismo comteano, talvez o contrário. Barreto aponta que o advento da relação jornalismo e política é um sistema de ação e reação no que ele chama de “atitude noticiosa”. Assim sendo, a mídia nem sempre cumpre o papel de informar, papel esse que interessa ao público, mas passa a disputar poder, a distribuir ou inibir esse poder partindo de outros interesses.

No que tange aos interesses de publicação das informações, Barreto fala da relação do jornal, sendo esse o “veículo”; e o jornalismo, sendo a “instituição legitimada”. Ele esclarece que a “instituição legitimada” se manifesta no “veículo” e que esse possui uma credibilidade, espaço, lugar no meio social. Podemos então inferir que esse espaço pode influenciar o jornalismo, ou melhor, a notícia (de acordo com as posições ocupadas pelos seus organizadores, dirigentes). Nesse ponto é possível analisar que os veículos que transmitem a informação têm interesses tanto quanto o jornalista e a fonte. Interesses esses que nem sempre comungam, mas que se entrelaçam na dinâmica da notícia e o papel que exerce o jornalista diante dessa dicotomia. Segue um trecho da referida obra de Barreto que sucinta isso:

*”Ao partilhar crenças e valores comuns com os atores políticos, o jornalista pode privilegiar certas aptidões e/ou pronunciamentos de alguns deles em detrimento dos demais. Isso é um efeito prático da ideologia, que se faz imperceptível aos esquemas mentais e cognoscitivos do jornalista, quando busca exatamente “cumprir com o seu papel”.”

No caso do filme “Intrigas de Estado”, o jornalista precisou deixar as questões pessoais para conduzir a investigação, mesmo que o prejudicado dessa investigação e posteriormente sua publicação fosse alguém importante afetivamente, como o seu amigo (congressista). Assim se constituí a ética no jornalismo e a busca da imparcialidade exigida.

As virtudes da relação “jornalismo e política” são muitas, como foi dito: informação para todos; formação de um senso mais crítico; impedir a ocultação de interesse privado na política, entendendo que o interesse e foco devem atingir o público etc. É importante se ater que essa relação envolve poder e, portanto, precisa ser analisada de maneira crítica, já que esse poder pode sucumbir à ordem tendenciosa.

 

*(Emanoel Barreto. Jornalismo e política: a construção do poder. Estudos em Jornalismo e Mídia, v. 11, n. 2, 2014, páginas 13 e 14.)

Crédito imagem: freedigitalphotos. net/Witthaya Phonsawat

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