5 palavras quase esquecidas da bela e desafiadora língua portuguesa

Há alguns dias fui tomado de assalto por palavras da língua portuguesa que andavam esquecidas por mim, no vocabulário diário. Mas que retornaram em forma de entrevistas, conversas, leituras.

VADIAGEM  

Assistia ao novo e promissor programa do Pedro Bial – pena que começa tão tarde – cujo tema foi o samba. Três convidados brindaram a noite: Zeca Pagodinho, Paulão 7 cordas e o escritor Lira Neto, que lançou o livro “Uma História do Samba”. O papo ia animado na bela mistura entre literatura e samba, até que uma conversa puxa a outra, Lira Neto contou que o samba já nasceu perseguido pela polícia. Em 1890, dois anos após a abolição dos escravos, foi implantada a Lei da Vadiagem. Ela consistia em prender todo cidadão que estivesse andando pelas ruas e, instado pela polícia, não comprovasse que tinha um ofício. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, vadiagem significa, dentre outras coisas, andar à toa, contravenção penal que se configura quando o indivíduo voluntariamente se entrega à ociosidade e ao recurso de expedientes ilícitos de subsistência, apesar de apto para o trabalho. Em suma, ficar na vida mansa sem fazer nada, como se diz.

Acontece que dois anos depois da alforria, os escravos estavam livres, mas sem trabalho. Muitos se dedicaram ao samba, nome cuja origem até hoje é controversa. Daí a malandragem atribuída a ele. O governo iniciante reprimiu o recente ritmo, na tentativa de desafricanizar o Brasil. Como vemos, sem sucesso. O samba está vivo e muito bem, graças a Deus.

E veio à baila, nessa narrativa, o compositor João da Baiana, que tocou com Pixinguinha. Como documento comprobatório para não ser preso, o sambista possuía um pandeiro assinado pelo então poderoso senador Pinheiro Machado. Ele dizia que era o seu salvo-conduto. Guardou-o até o fim da vida, mesmo com o couro rasgado e colado com esparadrapo. Afinal, em tempos de vadiagem forçada, ele tinha um instrumento que comprovava sua profissão: músico. Zeca Pagodinho, em tom de brincadeira, disse que ainda hoje o samba vive à margem. É o último a ser pedido nas festas, quando todo mundo já está bêbado, completou.

Segundo o dito popular, tudo acaba em samba. E isso me fez lembrar o trecho de um, cantado por Clementina de Jesus: Não vadeia Clementina, fui feita pra vadiar. 

PRÁTICO

Numa conversa informal com amigos, o assunto navegação veio à tona. Como admirador de navios, lembrei-me do prático. Um nome interessante para uma profissão mais interessante ainda. Ora, pela definição do mesmo dicionário Houaiss, prático significa ter habilidade e experiência. Imagina o trabalho para estacionar um navio de contêineres de 2600 metros, por exemplo. São os flanelinhas mais caros do mundo. Manobrar esses gigantes até o porto seguro requer conhecimentos hidrográficos e topográficos das áreas marítimas, fluviais ou lacustres. O objetivo é conduzir em segurança navios que transportam cargas imensas, bem como uma quantidade talvez maior de pessoas. Um transatlântico pode levar quase seis mil passageiros, fora a tripulação. É uma cidade flutuante. Sejamos práticos, eles podem cobrar caro, mas o serviço é essencial para todos nós, que muitas vezes não temos ideia de como as coisas chegam em nossas casas ou trabalho. A maioria através dessas cidades marítimas, cuidadosamente manobradas e estacionadas nos portos. Uma avariação nestas embarcações, com a consequente perda da carga, pode custar muito tempo e dinheiro – além de vidas, que não têm preço.

SISUDO

Lendo uma mensagem de Chico Xavier, deparei-me com esta palavra. Quanto tempo não a ouvia, embora ela seja uma característica comum a muitas pessoas. No referido dicionário encontramos o significado: aquele que se mostra sério, grave, que apresenta um semblante carregado, demonstrando mau humor. Vivemos um momento grave, tanto no Brasil, quanto no mundo. Reconheço que anda difícil manter o bom humor o tempo todo. Mas sisudez permanente é sinal de algo grave no indivíduo, não na sociedade, como diz a mensagem abaixo:

Um homem sisudo entrou numa sala onde várias pessoas conversavam cordialmente. O recém-chegado sentou-se sem dizer palavra. Destacou-se para logo uma estranha ocorrência. Os circunstantes calaram-se e, em seguida, afastaram-se, um por um. O dono da casa veio ao encontro do último dos retirantes e perguntou: – Que terá sucedido, se o meu novo hóspede nada chegou a dizer? O interpelado, no entanto, respondeu, hesitante: – Não consigo explicar, mas tenho a impressão de que o silêncio dele faz barulho demais.

Fonte: Livro Recados do Além, do Médium Francisco Cândido Xavier.

O silêncio interior ou exterior é importante em diversas ocasiões. Vale realmente mais do que mil palavras e evita discussões, brigas e até tragédias desnecessárias. Mas sisudez é outra coisa.

 

INCONSTITUCIONALISSIMAMENTE

Quando eu era criança na escola primária, que nem era ensino fundamental, lá nos idos de deixa pra lá, os professores gostavam de citar esta palavra, até então a maior da língua portuguesa: 27 letras. Nós brincávamos de soletrar ou falar rapidamente sem enrolar a língua e sem entender patavina do significado. Atualmente, contudo, existe outra, com 46 letras, que derrubou uma geração inteira. Tentar falar rápido ou entendê-la é um desastre natural. Literalmente falando. Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico indica relação com uma doença pulmonar adquirida por quem aspirou cinzas vulcânicas.  Tem a ver com erupções, lava, uma tragédia da Roma antiga, tipo o Vesúvio arrasando Pompeia.

Mas voltemos ao inconstitucionalissimamente nosso de cada dia. Palavra que nem consta em alguns dicionários, mas que os políticos do Brasil ressuscitaram com todo vigor daqueles tempos idos. O significado se resume ao ato praticado de forma contrária à constituição vigente; de modo inconstitucional. Preciso dizer mais alguma coisa? Pode não ser a maior, no entanto é a mais Lava Jato de todas.

A gente puxa um fio e vem o novelo. Voltando à palavra pneumoultra… Cansa até para escrever. Só podia ser uma doença. Já pensou na consulta médica?

– O que o senhor tem?

– Um palavrão.

CLARIM

Esta semana assisti a um dos mais belos protestos realizados no Brasil. Os artistas do Teatro Municipal do Rio fizeram um pedido de socorro pela falta de pagamentos do Estado (falido) que emocionou a todos, pois foi realizado com arte. Ver a cantata Carmina Burana, assim na rua, com bailarinos, músicos e maestro, foi de arrepiar. Sem contar os instrumentos que eu nem sei o nome, mas gosto de um, o fagote. Que como o clarim, é um instrumento de sopro. Mas se fagote é um instrumento e ponto, já clarim é poesia, além de ser também sinal de fama, se vier estampado na faixa ou escudo. Havia um jornal chamado O Clarim que circulava na cidade de Matão em São Paulo, da qual fui colunista nos anos 2000. Seguindo esta linha de raciocínio, no mesmo dia li uma frase sobre o amor, de um autor desconhecido. Ela faz uso da nossa quinta palavra, de forma poética: O amor é o facho que ilumina as trevas, o clarim matinal que toca ao despertar. 

 Então, que rufem os tambores e soem os clarins. Bem alto e claro, para melhorar a sisudez do mundo em que vivemos, e terminar com a vadiagem dos que locupletam o país. De preferência, usando de toda a prática necessária para erradicar esse mal – maior que a tal palavra de 46 letras – da nossa pátria mãe gentil, mas inconstitucionalissimamente incorreta. Nem sei se posso me expressar desta forma. Por isso hesitei, usei de procrastinação – outra palavra que sugere alguma blasfêmia, mas na verdade significa adiar, postergar – para escrever este artigo. Como insinua o título desta coluna, a língua portuguesa é encantadora, mas ardilosa, cheias de truques e exceções à regra. Quem se atrever a duelar com ela, que venha muito bem preparado para enfrentar tão grande desafio. Eu não ouso. Humildemente, venho munido de dicionários, peço ajuda a quem a entende melhor que eu, porque respeito é bom e a língua portuguesa agradece. Ainda assim, desobedeço regras, cometo heresias. Mas é tudo culpa dos corretores ortográficos e dos teclados. Eles emperram.



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Informações do Autor

Mauro Barbosa Gomes

- Escritor, palestrante e músico da banda Quinta Nota. - Dois livros de crônicas/contos: A Chave do Seu Coração e Olhares. - Faz eventos promocionais com palestras e música em livrarias e Cafés. - Participação na Bienal Internacional do Livro 2016 no Anhembi São Paulo com tarde de autógrafos para “Olhares” , publicado pela Chiado Editora. - Integra a Antologia Poética Além do Céu Além do Mar que reúne poesias de vários autores Brasileiros em 2017. - Autor do Projeto literário Musical "O Tom da Letra" levado há dois anos em bares, restaurantes, etc. - Cronista por dez anos da revista eletrônica InfoWebNews (www.infowebnews.com) - 2001 a 2011 - Dois trabalhos publicados em Antologias literárias vencedoras do Prêmio Porto Seguro de Crônicas em 2008 e de Contos em 2009 - Dois contos selecionados para a Antologia de Contos 2009 do concurso da Editora Guemanisse, em Teresópolis. - Curso de Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC) – 1992 - Curso de Redação Publicitária - 1987 (Faculdades Integradas Hélio Alonso) Gosto de falar de relacionamentos, cotidiano, a vida em geral.

6 Comments
  1. Fátima V.

    19 de maio de 2017 de 23:53

    Concordo com Godinho: leveza, humor e informação.
    E escolho o texto do INCONSTITUCIONALISSIMAMENTE: tá na medida !

    • Mauro Barbosa Gomes

      Mauro Barbosa Gomes

      31 de maio de 2017 de 01:09

      Obrigado pelo carinho de sempre, minha querida amiga.

  2. odilon pilli

    16 de maio de 2017 de 19:21

    Falando de tempos de outrora (lá pelos idos de 65), estudava-se a língua portuguesa lendo, dando-se a devida entonação e entendendo o conteúdo. Hoje, mal sabem o significado da vírgula inserida num texto para dar tempo de respirar, não conseguem nem dar a sua versão do que acabaram de ler!

    • Mauro Barbosa Gomes

      Mauro Barbosa Gomes

      31 de maio de 2017 de 01:11

      Tem toda razão Seu Odilon. Errar é humano, mas andam maltratando demais a nossa bela língua portuguesa. Abraços e obrigado.

  3. Andre Godinho

    16 de maio de 2017 de 15:05

    Texto muito bom. É leve, com humor e informação

    • Mauro Barbosa Gomes

      Mauro Barbosa Gomes

      31 de maio de 2017 de 01:14

      Godinho! Folgo em tê-lo por aqui. Muito obrigado pelo comentário. Abraços

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