Tornar-se pessoa: somos produtos do que há ao nosso redor?

A teoria Bahktiniana de discursividade diz, em resumo, que nós somos o produto das interações sociais ao nosso redor, da multiplicidade de discursos que nos cercam. Tudo que absorvemos passa por uma espécie de processador discursivo, o qual filtra e produz nossos pensamentos e ideologias. A partir desse processo, nossa consciência é gerada e, por conseguinte, nossos valores, nossa ética e nossa moral. Entendendo, portanto, que nós, como indivíduos, somos produtos do que está ao nosso redor, fica nítido como é importante prestar atenção àquilo que nos cerca.

O jeito mais comum de as pessoas desistirem de seu poder é acreditar que não têm nenhum” – Alice Walker

Majoritariamente, ao nosso redor, encontram-se histórias. Não como a dos livros precisamente, mas ideais, ideologias, discursos, e todos esses têm poderes fortes sobre os seres vivos. Quando se maltrata alguém, as ações desses tratos acabam chegando ao processador discursivo, o qual, por sua vez, acaba internalizando e dando ao indivíduo a falsa crença de que aquilo é verdade. Palavras e ações têm poderes fortes, têm a capacidade de moldar caráteres e construir inseguranças.

Visto o processo acima descrito, é necessário falar sobre o poder que as histórias têm. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi, em sua TED Talk, fala sobre o perigo da única história. Esta pode ser caracterizada como a versão predominante dos fatos, a versão que é propagada, seja pela mídia seja pelas pessoas, mas que não compreende em si tudo o que acontece(u). Em outras palavras, a única história pode ser caracterizada como uma espécie de estereótipo, o qual é extremamente prejudicial e doloroso.

Quando propagamos uma única história, deixamos de lado todas as outras verdades, todas as outras visões, e o grande perigo disso é que construímos nas pessoas ideais e valores baseados em verdades incompletas. Levamos pessoas a internalizar inverdades, o que, muitas vezes, acarreta problemas de depressão, ansiedade e autoconfiança. O grande desafio do homem é conhecer todas as histórias, ver com seus olhos o que aconteceu e tirar conclusões imparciais.

Para ilustrar essa situação, temos que, quando pensamos em minorias, imediatamente, vem à tona a história que nos é contada e não na verdade completa. A título de exemplo, temos a comunidade LGBT, que é constantemente tachada de promíscua, doente e drogada. A verdade é que essas definições são estereótipos, e, nas palavras de Chimamanda Adichie, “o problema com estereótipos não é que eles são falsos, mas que eles são incompletos”. Há uma parte da comunidade que é, sim, promíscua e drogada, porém há outra parte maior ainda que é saudável, comprometida e honesta.

Ainda nas palavras da escritora, podemos dizer que a história única rouba a dignidade das pessoas. Pense em quantos estereótipos falsos nós acreditamos, pense em quantas vezes optamos por acreditar em apenas uma versão da história sem entender tudo o que ocorreu. Quando fazemos isso, tiramos o direito do indivíduo de mostrar a sua verdade, a sua realidade, roubamos dele a sua honra. Há, de fato, um grande desafio em distinguir o que se deve tomar ou não como verdade.

Após, então, dissertar sobre histórias e seus poderes, acho que é possível finalmente falar sobre a citação no início desse artigo. Pessoas, na qualidade de produto das interações sociais, criam conceitos a cerca de tudo, incluindo delas mesmas. Destarte, ao escutar histórias incompletas, um indivíduo frequentemente acaba internalizando-as como totais. Há perigo maior do que alguém acreditar em uma história incompleta sobre si próprio e adotá-la como verdade incontestável?

Como consequência, acontece exatamente o que disse Alice Walker. As pessoas começam a desistir de si próprias por acreditarem que não possuem poder suficiente. Porém a verdade é que elas são poderosas e capazes, elas só foram enganadas e levadas a acreditar que não. Pessoas estão a desistir de si próprias e de todo o futuro que está a frente delas por causa de discursos negativos e incompletos que estão internalizados.

Como indivíduos, cabe a nós a sensatez de processar adequadamente tudo aquilo que há ao nosso redor. Devemos, também, lembrar que o oposto é real. Da mesma maneira que o negativo exerce poder forte nas pessoas, o positivo também, ele é capaz de criar confiança, amor e empatia. É possível, então, afirmar que o processo de construção do caráter e da personalidade de uma pessoa pode pender tanto ao positivo quanto ao negativo, dependendo apenas do que ela internalizará.

Talvez seja a hora de parar e refletir sobre o que estamos a tomar como verdade, estamos nos cercando de discursos positivos, que agregam à boa convivência e à saudável autoestima? E, mais importante, as histórias que nós propagamos são verdades ou estamos ajudando a construir estereótipos? Sempre é bom perguntar: “se eu conhecesse a história toda, eu desejaria o que desejo, faria o que faço, pensaria o que penso?”. É melhor refletir sobre isso, antes que seja tarde demais.



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Informações do Autor

Ricardo Bibiano

Mineiro, Letras e professor de redação. Publico textos há aproximadamente 1 ano. Socialite falido.

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