Por que aplicativos como o Lulu fazem tanto sucesso?

Neste artigo, farei uma análise psicológica do por que um aplicativo aparentemente inocente teve milhões de adeptas em menos de uma semana: o Lulu.

Interagir com o aplicativo mais baixado nos últimos dias não é difícil. Com um design intuitivo e delicado, chama a atenção logo de cara. Ao entrar no programa a maior preocupação é deixar claro às usuárias que o anonimato é a prioridade máxima, deixando assim as mais temerosas à vontade para “opinar”. Logo em seguida o programinha induz as novatas a fazer sua primeira avaliação, com frases do tipo: “Fulano ainda não foi avaliado. Faça um favor a ele e comece com isso! (Fica tranquila, ele nunca vai saber que foi você)”. Desta forma as mais recentes julgadoras da aparência alheia, tem a oportunidade de avaliar qualquer pessoa do sexo oposto que esteja em sua rede social da mãozinha, tagueando o pobre indivíduo com comentários dignos de programas apelativos que vemos por aí, tudo envolto sob o véu do lúdico inofensivo.

O fato é que o lulu expõe mais do que simples comentários, e agora não estou falando dos pobres avaliados, me refiro à fragilidade psicológica das avaliadoras, algo que cresce a cada dia, à medida que a opinião social torna-se baliza do comportamento.

O que fica claro já no primeiro instante é a necessidade de anonimato, ou seja, se ninguém descobrir quem sou, posso fazer o que quiser e nisto o programa deu um tiro certeiro nas cabecinhas mais vulneráveis, pois reforça várias vezes que a avaliadora jamais será descoberta.

Quando nos escondemos sob o escudo do anonimato, podemos revelar o lado mais sombrio de nossa personalidade deixando-se dominar por sentimentos de raiva, vingança e até mesmo a cobiça, lembrando que homens comprometidos também podem ser avaliados. O anonimato traz consigo a falta de compromisso e responsabilidade, premissas fundamentais para um comportamento ético e consciente.

A segunda questão trata-se de uma indução ao julgamento através de um reforçamento da autoestima, que na verdade não passa de inflagem do ego. Mulheres com a autoestima rebaixada sentem-se verdadeiras donas de si ao dar sua nota no lulu, pois entre fotos masculinas, frases do tipo “Porque quando você está querendo, não pode ser mais ou menos!” ou “porque figurinha repetida não completa álbum” ludibriam às mentes menos favorecidas intelectualmente à uma falsa segurança de si, levando-as a acreditar que tem realmente o direito ao julgamento. Talvez este, seja o ponto mais importante desta discussão. Arrisco a dizer que todo este “frisson” acerca do aplicativo está muito ligado à baixa autoestima das mulheres, que para se protegerem julgam, avaliam e opinam sobre o outro, na tentativa de reafirmar-se para si mesmas.

O terceiro ponto refere-se a um comportamento observado de longa data, mas que vem se destacando a cada dia devido a nossa interação tecnológica, o de fazer o que os outros fazem para garantir aceitação. Estar no lulu é legal, porque assim eu me sinto pertencente a um grupo de mulheres bem resolvidas que vieram para se vingar dos anos de crivo masculino. Balela! Além da baixa autoestima, do sentimento de frustração e do medo da exclusão social, mulheres se submetem a julgar os outros e assim inconscientemente subjugam a si próprias a uma coerção social descabida, docemente representada por um pequeno ícone com tons de rosa choque.

Definitivamente, eu não consigo prever aonde tudo isso pode acabar, na melhor das hipóteses visualizo pessoas com a autoestima ainda mais rebaixada e alguns relacionamentos terminados. Especula-se que a versão masculina do programa em breve causará novos agitos no país tupiniquim, arrebatando novamente uma multidão de anencéfalos, travestidos de pessoas descoladas.

Acredito que homens e mulheres podem e devem conviver harmoniosamente, perpetuar a diferença de gênero não nos levará a lugar algum. Somente a partir da visão de equidade é que construiremos uma sociedade justa, ética e digna para qualquer ser humano.

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Informações do Autor

Gisele Meter

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