Projeto comunitário ensina música eletrônica para crianças

Stop the War, da rio-negrense Marieli Hacke em parceria com o DKVPZ, é uma música com temática um pouco diferente do que se vê normalmente no cenário eletrônico: a violência moral, física e emocional contra crianças. E se a coragem de abordar um assunto como esse já é capaz de gerar grande impacto, as pesquisas realizadas durante o processo foram ainda mais longe: resultaram no projeto comunitário Stop the War, Play Music, que introduz crianças no cenário musical com a intenção de transformar sua realidade e oferecer a elas um futuro melhor.

Desde 2016 e com o apoio incondicional da Católica de Santa Catarina – Campus Jaraguá do Sul, onde Marieli cursa o bacharelado em Moda, o projeto ensina crianças gratuitamente a tocar violão, mixar com CDJ, criar suas próprias composições e entender que a música eletrônica, ao contrário do que ditam os estigmas sociais, faz parte de um cenário tão rico e complexo musicalmente quanto qualquer outro gênero.

Mesmo em apenas um ano de existência, o programa traz tantos benefícios que chamou a atenção da prefeitura de Rio Negrinho e começará a ser realizado também naquela cidade a partir deste ano. E, se não bastasse a projeção regional recebida, ele ainda conta com o apoio de DJs e produtores como Alok, Felguk, Chapeleiro e Elekfantz, reconhecidos como os melhores do Brasil.

Quer entender o motivo de tanto sucesso? Confira a entrevista da Dom7 com Marieli Hacke, a cantora, produtora, DJ, compositora, criadora – e agora professora – do Stop the War, Play Music, e entenda como ele funciona!

Dom7 – Como surgiu o projeto?

Marieli Hacke – Para a música Stop the War, fizemos muitas pesquisas e entrevistas com crianças. Algo que me tocou muito foi ver uma criança, de uma comunidade de São Paulo, dizendo “tia, eu queria muito sair na rua, mas não posso, porque posso levar um tiro”. Isso nos deixou muito revoltados. Foi aí que tive a ideia de que poderia ensinar e transmitir bons valores sociais e ainda construir outra imagem sobre a música eletrônica, para que as pessoas a enxerguem como conceito, como cultura. Como temos uma disciplina de projeto comunitário, resolvi escrever o projeto e, quando cheguei na faculdade para apresentá-lo, estava meio nervosa e não sabia se iria ser aceito, mas me surpreendi. De cara o pessoal adorou, disponibilizou o local e foram abertas as inscrições.

D7 – Qual é o objetivo do Stop the War, Play Music?

MH – Promover a implementação da cultura da música eletrônica para a criança. Abordamos assuntos teóricos e práticos que agregam conhecimento musical e técnico para as atividades relacionadas ao tema, além de transmitir valores pessoais e de comportamento. Nos últimos anos, o mercado de entretenimento da música eletrônica se tornou o maior do mundo e movimenta milhares de pessoas. Com esses dados, nossa instituição resolveu chamar as crianças para conhecer a parte cultural de tudo isso, dando-lhes a chance de mais essa opção de trabalho futuramente – hoje já existem diversas instituições de ensino privado que oferecem a formação, e a profissão de DJ já possui regulamentação no Ministério do Trabalho.

música eletrônica
Imagens: Projeto/Arquivo Pessoal

Como a música eletrônica pode incluir equipamentos eletrônicos e acústicos, as crianças aprendem sobre ambos, na teoria e na prática, e depois podem escolher o que utilizar. Paralelamente a isso queremos que expressem seus verdadeiros sentimentos, que preservem sua essência e bom caráter, adquiram conhecimento na área, tendo a música como apoio e manifesto juntamente com a liberdade e o direito de ser criança, vivendo cada fase no tempo correto e combatendo violências, drogas e afins.

D7 – Como são as aulas?

MH – Ensinar música, ainda mais eletrônica, para mim, é maravilhoso – então procuro deixar as aulas dinâmicas, com muita interação. Misturo linguagem formal e informal para que haja entendimento e procuro sempre explicar da maneira mais divertida cada assunto. Trabalho muito visualmente, já que é através de vídeos que eles conseguem entender muito sobre o cenário eletrônico, pelo comportamento dos DJs e do público.

O plano de ensino é dividido em duas etapas, primeiro a teoria e depois a prática. Além do eletrônico, ensino violão, para que eles entendam que há a possibilidade de mesclar com instrumentos acústicos – até mesmo violino. Os conteúdos abordam também gêneros, estilos e valores de comportamento, respeito com o outro e o combate à violência através da música.

D7 – O interesse das crianças pela música eletrônica alcançou suas expectativas?

MH – Quando as inscrições abriram fiquei muito ansiosa, com frio na barriga, porque querendo ou não ainda é algo “novo” aos olhos de muita gente.  Quando vi que teria que ensinar 12 pequenos foi uma sensação maravilhosa. O desempenho deles durante as aulas é fantástico, a forma como aprendem, se manifestam e opinam a cada assunto e situação é sensacional. A visão deles mudou completamente não somente na música, mas na vida pessoal também – tivemos muitos casos de melhora em muitas situações delicadas, nas quais o projeto foi muito importante. Não consigo descrever minha felicidade por ver eles falando sobre a música com a mesma linguagem que meus colegas de trabalho, ainda tão novos. Na minha época era muito difícil ter isso, então tudo que desejo é transmitir esse conhecimento para que mais tarde eles transmitam aos filhos e a quem eles puderem. Se a música é capaz de mudar a vida deles, é capaz de mudar a vida de qualquer pessoa.

PARTICIPE!

O curso atende crianças de 8 a 17 anos e as inscrições são realizadas no setor de projeto comunitário da Católica. As aulas são realizadas aos sábados, das 8h às 11h, e acontecem durante todo o ano.

 

Informações do Autor

Bruna Borgheti

Jornalista formada pelo Bom Jesus/Ielusc, de Joinville-SC, é acadêmica do curso de Letras da UniCesumar. À frente da redação das publicações do Grupo Dom7, faz a edição e curadoria de conteúdo do site e já teve suas aventuras pelo mundo corporativo, mas gosta mesmo é de um documento de Word em branco. Tem sugestões pra dar? É ela que você está procurando. Entre em contato pelo [email protected]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *