Rock in Rio 2017: um festival de clássicos, diferenças e foras

O Rock in Rio 2017 pode não ter sido um dos melhores, mas foi diferente. E isto já é um avanço para festivais de rock que têm por finalidade gerar lucro, obviamente, movidos a muita diversão sonora. Quanto mais, melhor. E depois de tudo vem a inevitável ressaca, seguida dos famosos “Eu fui” e outras coisas do gênero. Mas se ficar uma lembrança boa e marcante, como o primeiro em 1985, já valeu a pena.

E este teve. Primeiro, a diversidade. Todos os gêneros juntos e misturados. E o principal, pelo contexto que vive o Brasil, talvez o pior já visto nas últimas décadas. Foi visível o limite de insatisfação do público com o cenário político do país. Sendo assim, qualquer coisa que pudesse lembrar o desgoverno do governo era um coro de “Forma Temer” e outras palavras de ordem proferidas por jovens de todas as idades. Principalmente em shows de bandas nacionais, que abriam as noites no palco mundo. Aliás, este RIR 2017 foi uma espécie de máquina do tempo. De volta para o passado.

Me vi adolescente ao dar de cara com Peter Townshend e Roger Daltrey idosos, mas com o vigor em dia. A mente remeteu imediatamente à famosa ópera rock do The Who: Tommy. Assisti num cinema que não existe mais, com colegas que nunca mais verei. Fiquei vidrado na telona, abestado, olhando aquele jovem cantar “See me, Fell me” e mais adiante o garoto Elton John, vestido estranhamente, um gigante de sapatos enormes ao som de Pinball Wizard. E quase 40 anos depois, como um “Déjà vu”, lá estávamos nós novamente: Eu diante da tela, com os mesmos cabelos brancos deles, ouvindo “Who are you?”.

E ainda teve Aerosmith, o “até que enfim” Def Leppard, os apimentados Red Hot Chili Peppers, e um Axel Rose desafinado, mas valente. O que aconteceu com o rock? Envelheceu e não renovou. Há tempos que as grandes atrações do RIR são bandas setentonas que se revezam a cada dois anos. Eu não reclamo, porque são do meu tempo, e eu adoro o rock dos anos sessenta e setenta. Meu filho curte o que eu curto. E isso ficou claro também com outros pais e filhos cantando os sucessos dos senhores do rock. Belchior tem razão sobre sermos como nossos pais. Pelo menos no que tange ao rock.

Mas este ano a coisa saltou aos olhos, e se não houver uma renovação, será assim até eles caírem no palco. Talvez a exceção tenha sido Maroon 5 e 30 Seconds to Mars, ambos da década de noventa. Mas a grande maioria, incluindo brasileiros como Alceu Valença, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, e bandas como Capital Inicial, Blitz e Titãs, não me deixa mentir.

Até Rogério Flausino do Jota Quest surgiu de cabelos brancos. Proposital? O legal no show do sempre certinho Jota Quest foi o que para muitos pode parecer piegas: o pedido, num dia dificílimo para o Rio de Janeiro, onde a violência campeava sem controle logo ali, do lado da diversão, para que a multidão se abraçasse, formando, quem sabe, 50 mil abraços*. E o povo aquiesceu ao som de “Dentro de um abraço”. Piegas ou não, foi bacana. Uma tentativa válida e oportuna pela paz. Estamos todos cansados deste país de desmandos e corrupção, de denúncias e muitos melindres por nada. Tudo muito polarizado, à flor da pele, como bem disse Rogério no seu discurso que mais pareceu um desabafo.

Uma luz foi jogada sobre os corruptos deste país? Sim. Alguns foram presos? Foram. Agora não dá mais para frear o rumo das coisas como querem os poderosos, ignorando leis, trocando parlamentares na hora do voto, etc. O povo pode até estar confuso com tantos desdobramentos das operações iniciadas pela lava-jato. Mas torço para que esteja atento a tudo que resultar delas. De bom e de ruim. Ano que vem tem eleição. Olha a Alemanha com radicais voltando. Olha a briga de dois seres descompensados: Trump e o ditador da Coréia do Norte.

Se o mundo enlouqueceu, podemos fazer diferente. Um RIR virtual em 2018. Gostamos de música, de diversão e arte, mas não somos tolos.

O povo se abraçou pela paz, pela honestidade, pelo bom uso do dinheiro público. Que é nosso, não esqueçamos disso. Foi simbólico? Foi. O “Fora Temer” cantado nos shows das bandas brasileiras também. O Rock in Rio mostrou um público nitidamente cansado. Ele quer ouvir e se divertir com música, nova, antiga, de gêneros e misturas variadas. Mas, principalmente, de qualidade. O Brasil precisa dessa qualidade, de paz e, principalmente, do fim dos “canalhas”.

Afinal, até quando cantaremos em coro “Que país é esse? É a (…) do Brasil” Que a música, neste festival, possa ter feito diferença. Ecoado além dos palcos. Seja ela um veículo que dê partida a essa mudança radical que o depauperado Rio de Janeiro e o Brasil necessitam. E como Ivan Lins lembrou lá no primeiro Rock in Rio: Depende de Nós. Também.

*Fonte: https://g1.globo.com/musica/rock-in-rio/2017/noticia/jota-quest-promove-abraco-coletivo-e-faz-discurso-contra-canalhas-em-show-certinho-cheio-de-hits.ghtml 

Imagem: M de Mulher



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Informações do Autor

Mauro Barbosa Gomes

– Escritor, palestrante e músico da banda Quinta Nota.
– Dois livros de crônicas/contos: A Chave do Seu Coração e Olhares.
– Faz eventos promocionais com palestras e música em livrarias e Cafés.
– Participação na Bienal Internacional do Livro 2016 no Anhembi São Paulo com tarde de autógrafos para “Olhares” , publicado pela Chiado Editora.
– Integra a Antologia Poética Além do Céu Além do Mar que reúne poesias de vários autores Brasileiros em 2017.
– Autor do Projeto literário Musical “O Tom da Letra” levado há dois anos em bares, restaurantes, etc.
– Cronista por dez anos da revista eletrônica InfoWebNews (www.infowebnews.com) – 2001 a 2011
– Dois trabalhos publicados em Antologias literárias vencedoras do Prêmio Porto Seguro de Crônicas em 2008 e de Contos em 2009
– Dois contos selecionados para a Antologia de Contos 2009 do concurso da Editora Guemanisse, em Teresópolis.
– Curso de Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC) – 1992
– Curso de Redação Publicitária – 1987 (Faculdades Integradas Hélio Alonso)
Gosto de falar de relacionamentos, cotidiano, a vida em geral.

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