Superação de perdas: sobre aprender a perder

Você deve aprender a perder. Sim, aprender a perder. Muita gente não quer perder nem numa disputa de par ou ímpar. Porém, a vida sem perdas seria um caos. Já imaginou se não você perdesse os dentes de leite, para que pudessem nascer os dentes permanentes? E se não fosse capaz de perder o orgulho para pedir perdão a alguém a quem fez mal?

Há perdas que são necessárias na sua vida, porque elas se tornam ganhos depois. Perder um emprego no qual você é humilhado, recebe um salário injusto não é uma perda. É um ganho. Perder alguns amigos que só queriam você quando era para as festas, mas não nos momentos difíceis que precisava, não é uma perda, é uma bênção. Conseguir se livrar daqueles colegas de escola que ofereciam drogas a você na época de adolescente foi a melhor perda que poderia ter acontecido na sua vida.

Se seu filho ou filha chegar chorando porque perdeu a namorada ou namorado para um ou uma colega de sala de aula, diga que essa foi a perda mais fantástica que poderia ter ocorrido, porque se isso acontecesse mais tarde a dor seria maior.

Perder a raiva, o rancor, a ganância, o ódio são perdas valiosas.

Perder a noção do tempo por estar ao lado das pessoas que você ama é um ganho imensurável para a sua qualidade de vida e paz de espírito.

O que você precisa aprender a perder para ganhar depois?

Conheço muita gente que só depois de perder amigos, um trabalho sem graça, o marido ou a mulher, é que conseguiram realmente viver e construir algo de valor na vida.

Certa vez um pássaro empreendeu voo quando avistou um rato morto. Ele desceu até o rato e o grudou em suas garras, voando para o alto e avante. De repente, vários outros pássaros começaram a bicá-lo, sem ele entender a razão, pois eram amigos. Quanto mais ele voava, mais os outros pássaros o bicavam. Repentinamente, sem ele perceber, o rato que ele havia pego caiu. No mesmo instante, os pássaros pararam de bicá-lo e foram atrás do rato morto. Ele recobrou as forças, e mais adiante, encontrou um saco de alpiste perdido na floresta, e pode aproveitá-lo por um longo período, levando também para seus filhotes.

Enquanto você se recusar a perder os ratos mortos da sua vida, pode ser que nunca consiga ser feliz e fazer o sucesso que merece. É preciso saber perder, largar os ratos mortos. Se não fizer isso, vão ficar bicando você por causa desses ratos. Se não largá-los, talvez nunca chegue até o saco de alpiste.

Eu sei como é difícil perder as coisas. Ninguém fica feliz, inicialmente, quando algo ou alguém se vai da sua vida.

A esposa, que luta tanto para agradar o marido, mesmo ele sendo um troglodita, chora quando a união acaba. Ela, ainda que tenha sofrido muito, luta para manter o casamento. Como talvez tenha se tornado dependente dele financeiramente, e até emocionalmente, pois várias vezes na semana ele faz questão de dizer o quanto ela é imprestável, incompetente, descuidada, relapsa, não consegue se imaginar vivendo sozinha. A relação vira um vai e vem interminável, onde cada vez ela sofre mais. Contudo, não se vê perdendo o marido, e já não torce mais para ser feliz, e sim para não ser tão infeliz.

Ela luta, cede, concede, praticamente se anula para manter a relação. Porém, a vida só piora, até um dia que ela não suporta mais as agressões, que já vinham acontecendo há tempos, mas agora se tornaram inaceitáveis. Então ela decide sair de casa ou tocá-lo para fora.

Inicialmente ela sofre, chora, se angustia e quase que liga para que ele retorne para tentarem mais uma vez, no entanto, não liga. Passam-se algumas semanas e a dor aumenta. A solidão parece pior do que apanhar e perder a dignidade. Mas ela insiste em continuar sozinha, ou com o filho que nasceu daquela união. Aos poucos, ela vai ganhando robustez, dignidade, brilho nos olhos novamente, e sente que pode levar sua vida sem o marido.

Depois de alguns meses, a mente dela já aprendeu a viver sem o parceiro, e está descobrindo como é bom viver sem represálias, sem alguém para diminuí-la como pessoa. Em pouco tempo a mulher se renova, fica mais bonita, com um semblante mais alegre, e seu filho também dá sinais de menos agressividade, pois também estava aprendendo a ser agressivo vendo todo dia brigas e discussões diferentes.

Em breve ela será capaz de reconstruir sua história, deixando para trás todo o sofrimento de antes, no qual ela estava presa e parecia dependente. Num belo dia ela conclui que foi a melhor perda da sua vida, pois perder aquela relação lhe deu o direito de ser uma mulher de verdade, de ser feliz e viver sua vida ao lado do filho, com alguém especial que a trata como merece.

Isso também acontece na relação profissional. Há pessoas dependentes dos gritos dos chefes, das indelicadezas dos superiores no trabalho. Algumas até acham estranho quando o chefe diz bom dia, imaginando que ele está preparando o terreno para chicotadas mais fortes na sala de reunião.

Como se tornaram dependentes do salário, devido às obrigações financeiras que assumiram, ou à falta de preparo para arranjar um novo emprego, vão levando a vida profissional humilhação após humilhação, sem notarem o quanto manter esse emprego está acabando com a chance de terem uma vida digna e feliz.

O tempo passa e elas estão há dez, quinze anos bebendo da mesma fonte de injúrias, ofensas, xingamentos, aguentando tudo de cabeça baixa. Até que um dia decidem dar uma bofetada no chefe são demitidas. Nesse momento elas se desesperam, e algumas até pedem desculpas para o chefe, sem êxito, porque ele tem prazer em demiti-las. Saem da empresa tristes, como se preferissem continuar com o ciclo de sofrimento, mas, ao menos com a condição de pagarem suas contas.

Passado algum tempo, mesmo depois de terem penado para arranjar outro trabalho, já que o antigo chefe fez questão de fechar portas, elas começam a viver uma vida profissional honrada. Talvez não ganhem tanto financeiramente quanto antes, mas o saldo da conta da dignidade está transbordando, e descobriram que ser feliz no trabalho é sinônimo de felicidade e sucesso na vida pessoal.

Por fim, concluem que se não tivessem tido a coragem de dar um direto no queixo do chefe, jamais teriam perdido aquele emprego que só destruía sua alma.

Veja, não estou dizendo para você se separar, nem para esmurrar seu chefe. Estou dizendo para você aprender a perder para conquistar alguma coisa melhor depois.

Às vezes é preciso perder aquilo que aparentemente protege você. Seja um emprego, um patrimônio ou alguém.

Há muitas pessoas que só conseguem crescer na vida depois que alguém muito especial se vai, por algum motivo. Mesmo sendo especial, talvez a pessoa era superprotetora, e não deixava a outra caminhar com as próprias pernas.

Se pessoas especiais podem impedir você de seguir seu caminho e construir uma bela história, imagine aquelas que colocam você para baixo e tiram o brilho dos seus olhos pela vida?

Quantos empresários de sucesso só conseguiram isso depois que foram demitidos de um emprego de décadas? Sofreram tanto quando foram demitidos que acharam que a vida profissional tinha acabado. Porém, decidiram que não deixariam a peteca cair e recomeçaram, aos trancos e barrancos, e com muito esforço, determinação, superaram o que parecia intransponível, e construíram grandes negócios.

As pessoas de sucesso e que são felizes conseguem se livrar de pesos e ratos mortos que carregava. E é nesse momento que descobrem uma nova vida, e o quanto perder pode significar ganhar.

Crédito imagem: freedigitalphotos.net/panuruangjan

RELATED ITEMS
Informações do Autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *